Miguel

” Meu rosto vermelho e molhado/ é só dos olhos pra fora/ Todo mundo sabe que homem não chora” Frejat.

 

Miguel jogava muito futebol. Gostava de volei, mas seu pai o ensinou que futebol é que era jogo de homem. Quando apanhava dos meninos maiores, apanhava em casa também. Seu pai lhe ensinou que tinha que aguentar o tranco e peitar a vida como macho. Miguel adorava o pai, e aprendeu cedo que homem não fala que ama outro homem. Ele via sua irmã mais nova abraçando sua mãe, claro, era coisa de menina.

Na escola tinha uma turma de garotos. Divertiam-se muito zoando com as garotas e com meninos mais afeminados que chamavam de um nome que ele nem entendia. Todos gritavam, ele também. Foi aprendendo a não levar desaforo pra casa. Não tinha conversa, era porrada. Foi crescendo e percebendo mudanças em seu corpo. Na turma não pegava bem falar sobre isso. O pai sempre cansado do trabalho, irritado, reclamando do jantar atrasado, Miguel não queria importuná-lo. Com sua mãe, nem pensar. Aprendeu com a garotada a ver filmes de pornografia. Foi sua escola. E, quando se apaixonou por uma garota, escondeu o quanto pode, afinal homem tinha que dar em cima de todas as mulheres. Já tinha aprendido a não expressar emoção.

Miguel cresceu, estudou e conseguiu um bom trabalho. O ambiente era bastante competitivo. Ainda bem que seu pai tinha lhe ensinado os “mandamentos da masculinidade”, ser forte e competidor. Que importância tinha seu medo de falhar, seus dias inquietos, seu sono atropelado? Aguentaria firme. Volta e meia falhava no sexo, achava que era o cansaço, culpava a parceira – não sabia fazer como nos filmes pornôs… 

Casou-se e as responsabilidades aumentaram. Sua angústia, do mesmo modo. Faltava o sono preocupado com as contas, o medo de perder o emprego, ainda mais agora que sua mulher estava grávida. Daria conta de tudo? E ela sempre enchendo o saco sobre os serviços domésticos. Veja lá se tem cabimento homem lavar louça. Ela não entende a pressão do trabalho, o chefe filho da puta que tem que aguentar. Miguel começou a beber. Saía do trabalho e ia espairecer com os amigos. Chegava tarde, a mulher reclamando. No dia seguinte voltava mais tarde ainda. Quem é ela pra dizer as horas que ele deve chegar? Ele não aguentava a ladainha dela, as reclamações de falta de atenção, sua dupla jornada de trabalho, sua gravidez e seus receios. Ele comportava-se como seu pai. Ela que se comportasse como sua mãe. Ele não estava aguentando? Ela que aguentasse também.

Numa noite, chegando tarde, depois de um dia em que o chefe o humilhou, não se conteve com as reclamações de sua mulher. Partiu para agressão. Era demais ter que suportar contas, chefe, medos, e ainda uma mulher lamentosa. No chefe não podia bater, perderia o emprego. Emprego que a sustentava e sustentaria seu filho. Ela trabalha, mas ele sim é o provedor. Agrediu e pronto. Foi denunciado.

Passado um tempo, recebeu uma intimação judicial. A promotora pública o convocou para participar de um projeto Tempo de Despertar. Miguel ficou muito revoltado. Já não estava mais com a mulher que tinha agredido, já tinha parado de beber. Que mais eles queriam? Teria que participar deste grupo que se reunia de quinze em quinze dias. Ele não teve outra alternativa, afinal era uma intimação judicial. Foi. Revoltado.

Nas primeiras reuniões teve que ouvir que a promotora, cansada de ver as reincidências de violências domésticas e instigada pelas vítimas, agora trabalhava com a outra ponta: Quem é este homem que agride? Por que agride? Como impedir que este homem continue nesta escalada de violência? Teve que ouvir sobre grupos de homens e rodas de conversas espalhadas pelo país. Teve que ouvir que os homens tinham que entender seu lugar de privilégio e saber se colocar, pois havia mudança na sociedade e eles estavam sendo empurrados pelas mulheres, que elas exigiam um novo homem. Miguel prestou atenção, muita atenção, quando disseram que os homens sofrem, mas sofrem calados e sozinhos. Que são criados como dominadores e isto diminui sua vida interior. Que, apesar de ocuparem uma posição de poder e falar o tempo todo, não se revelam. Que sustentam uma imagem. Que nunca se conversa sobre como ser homem.

Miguel se viu contando sua história, expôs o seu caso. Percebeu que tinha muita coisa para aprender; muito para mudar. Começou a sentir falta das reuniões. Começou a sair da escuridão.

Hoje Miguel e sua companheira farão faxina na casa. Não poderão sair com os amigos.

 

P.S. Inspirado em O Silêncio dos Homens, documentário dirigido por Ian Leite e Luiza de Castro. Disponível em https://www.papodehomem.com.br/o-silencio-dos-homens-documentario-completo. Agradecimento ao blog https://depressaocompoesia.com/o-silencio-dos-homens/.

Léo

 

12 comentários em “Miguel

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