Olhares

“A tarde talvez fosse azul/ Não houvesse tantos desejos” Drummond, Poema de sete faces, trecho.

 

Longe de mim querer escrever um ensaio. Quero mais é me deixar falar sobre pensamentos e reflexões sobre literatura. Creio que começou – se é que tem um começo – em minha participação numa roda de leitura. O mediador partia do princípio que a literatura salva. Esta ideia me incomoda tanto quanto a de que a educação é a chave. Explico.

Nazismo e fascismo queimam livros para escrever os de seus interesses. Há livros de todo tipo, assim como pessoas. Livros que mantém o status quo, os que questionam, os que consolam, os que nos embriagam da realidade por algumas horas, livros fabricados para nos enganar. Paralelo com a escola: em princípio é  pilar de sustentação de um sistema, porém é contagiada pelos dilemas sociais. Pode ser celeiro dos futuros governantes, celeiro dos revolucionários, preservar a mão de obra barata. Então como saber? O olhar, a experiência, o confronto com o real.

Alberto Manguel, Uma História da leitura, chama a atenção para vários tipos de leitura: a das estrelas, mapas, o agricultor lendo o tempo, nossa leitura de gestos, do olhar do outro, a leitura do corpo do ser amado. Acrescento que há vários saberes, incluindo os que estão alijados das escolas, livros, da cultura em geral. Alheios e marginalizados constroem sua própria dinâmica, seus olhares, a força da sobrevivência. Experiência necessária para mudar o mundo. Há vários saberes. Há várias leituras. Há vários olhares.

Um discurso inflamado tem o poder de levar muitas pessoas ao suicídio, cativar um exército amorfo e sem rosto, ou incendiar explorados e oprimidos contra um sistema, até então, invencível. Palavras tem força. Sedução. Desafio. Jogo. E, somos também, inconsciente coletivo, o tempo sem linguagem, os grunhidos. Mesmo porque quantas vezes sentimos o indizível? 

Literatura é ideológica. O autor expõe seu ponto de vista, sua visão de classe, sua visão de mundo. Mesmo sem se atentar, mesmo ultrapassando seus próprios limites. Balzac era conservador e, ao escrever sobre o período do início do capitalismo, faz uma obra- prima, dando munição para Marx, por exemplo. Lê seu tempo com olhar arguto e escreve esteticamente. Literatura humaniza, defende Antonio Candido, no sentido profundo do termo. Não edifica nem corrompe. Porém é portadora das contradições da vida. Humaniza porque é contraditória. Faz percursos pelo espiritual, psicológico, instintos, transfigura o real. Candido chama de literatura “todas as criações de toque poético, ficcional ou dramático em todos os níveis de uma sociedade, em todos os tipos de cultura” (Direito À Literatura, Editora Coimbra, 2004, p. 16). Ele a defende como um direito indispensável, pois todos nós fabulamos, sonhamos. É uma necessidade universal.

Necessidade, mas não salvo-conduto. A mão que segura o chicote lê. O patrão que explora lê. O machista, homofóbico, fascista, lê. Não é a leitura em si mesma que nos salva, ou que garante a mudança do real. A leitura traz ferramentas para observação e criticidade do real, para os que usam o chicote e para os que são surrados. Assim como a sociedade está dividida em classes sociais, a literatura, a arte, é fracionada pela chamada literatura de elite, literatura de massa, literatura popular. Homem branco hétero é mais publicado que mulheres, gays, negros, e por aí vai. Portanto mais lido. O homem do povo tem o direito de conhecer Machado de Assis. A mulher do povo tem o direito de escrever sua história. 

Nosso olhar de escritor e de leitor está viciado em ideologias, preconceitos, status quo. Nosso olhar de quem escreve e de quem lê está criando novos mundos. Tentando se livrar do velho. Construindo pontes. Imaginando, sonhando, e concebendo futuros. E temos que ter – ao mesmo tempo – um olhar experiente, perceber as armadilhas, apreender as possibilidades; e abusar do olhar infantil, desautomatizado, inaugural. Aceitar o jogo lúdico. 

Talvez uma obra de arte seja como uma árvore frondosa: raízes se aprofundando na terra e seus galhos esvoaçantes captando ares. E a tarde é azul e também cheia de desejos. Nossos olhares são imprescindíveis.

 

P. S. Referências: As Vozes Da Voz, ensaio, Cezar Tridapalli, Revista Helena, Biblioteca Paraná, Abril/2019. Marxismo E Crítica Literária, Terry Eagleton, Editora Unesp, 2011. E Antonio Candido, já citado.

Léo.

6 comentários em “Olhares

  1. Um ensaio de olhares.
    A leitura não salva quem não quer ser salvo. Explico…
    Hoje ouvi um político americano (Sanders) dizer q se for encontrada uma vacina para o Covid-19, essa deveria ser distribuída gratuitamente.
    Concordo ! E, infelizmente, sempre existiria aquele que não queria recebê-la.

    Curtido por 1 pessoa

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