Os Noivos

” — Senhores, dão-me licença para exprimir a minha fraca opinião? Não é só no caso do pão que se fazem maroteiras. E, como hoje vimos que, levantando a voz, é fácil obter justiça, continuemos assim, até pôr o mundo nos eixos” Alessandro Manzoni, Os Noivos.

 

György Lukács (O Romance Histórico, Boitempo, SP, 2011) confere que Manzoni – entre outros – apreende a vida do povo de maneira historicamente profunda, autêntica, humana e concreta. Expressa a essência, a riqueza e a versatilidade desta vida como base da transformação da história (p. 403). Se não bastasse, Manzoni tem dom para invenção da trama, fantasia na representação das personagens das mais diversas classes sociais e autenticidade histórica para vida exterior e interior (p. 92). Os Noivos é a prova.

Este romance histórico ( Editora Abril Cultural, RJ, 1971, tradução de Marina Guaspari), continua Lukács, se detém sobre a vida do povo italiano numa Itália fragmentada, de caráter feudal e reacionária, e em guerra entre suas partes “e dependentes da intervenção de grandes potências externas (p. 92). Manzoni retrata este panorama através do amor de dois jovens camponeses, os noivos, impedidos de se casarem. 

A trama se desenrola em 1628 e mais vinte meses. Começa em “Lecco, na época da nossa narrativa burgo populoso, prestes a se tornar cidade” (p. 11). Renzo Tramaglino e Lúcia Mondella são os noivos. Ele, fiandeiro, camponês e iletrado. Estão com data marcada para o casamento. São impedidos por Dom Rodrigo, fidalgo, morador de castelo, cercado por sicários. É a encarnação do poder, detendo em suas mãos as instituições locais: advogado, corregedor,  e uma parte da igreja. O almoço no castelo de Dom Rodrigo, logo nas primeiras páginas do romance, dão conta do seu poderio: “Dom Rodrigo tinha à direita o primo, Conde Atílio, seu companheiro de devassidão e arbitrariedades. À esquerda sentava-se com profundo respeito, (…), o senhor corregedor (…). Diante dele, dando mostras da mais entranhada deferência, almoçava o ilustre jurista (…)”. “À cabeceira da mesa, nos seus domínios, rodeado de amigos, de homenagens, de inúmeros sinais do seu poder, com um rosto soberbo que gelaria nos lábios qualquer conselho ou súplica” (p. 46), Dom Rodrigo. 

O fidalgo quer impedir o casamento de Lúcia por mero capricho, fruto de uma aposta. Exercício de poder. Para tanto, manda seus capangas intimidarem Dom Abbondio, cura do povoado. “O senhor tenciona casar, amanhã, Renzo Tramagliano e Lúcia Mondella (…). Esse casamento não se realizará; nem amanhã nem nunca. (…) ou quem o realizar não chegará a se arrepender, porque não terá tempo para isso (…)” (p. 13). As peripécias e aventuras começam. Dom Abbondio, covarde, e sua aia, Perpétua, pragmática, são personagens cômicos do romance. “Dom Abbondio –  o leitor já o percebeu – não nascera com fígados de leão” (p. 14). E que personagens! Frei Cristóvão, capuchino, ex-senhoril, será o que intercederá pelos noivos e os ajudará. Outro grande personagem. Como Gertrudes, a freira, e o Inominado, homem de grande poder que se converte.

Esta trama será cenário para grandes acontecimentos da Itália seiscentista. Renzo, fugindo da fúria de Dom Rodrigo, percorre uma Milão em plena revolta dos famintos. Fruto da carestia, pessoas saqueiam padarias, queimam móveis, exigem cabeças. O noivo  fiandeiro transforma-se em líder proferindo grandes discursos, e tem sua cabeça sujeita à forca. Adentra povoados vertidos em cadáveres assolados pela peste. Manzoni nos faz ver por dentro dos acontecimentos, nos faz testemunhas das artimanhas do poder. Participamos ativamente das aldeias saqueadas e amedrontadas pela invasão do exército imperial. Grandes cenas, grandes questionamentos. Um verdadeiro romance histórico do ponto de vista da vida do povo. “Para nós, os pobres, as meadas enredam-se, porque não sabemos descobrir o fio” (p. 28).

O narrador é brilhante. “Seja-me lícito interromper essa celeuma, para formular uma reflexão (…)” (p. 73). Arrasta os leitores pelas páginas, provocando-nos: “Calculem, pois, os meus poucos leitores (…)” (p. 15). “Poupo ao leitor as lamentações, as censuras, as acusações, as defesas” (p. 24). Constrói belas imagens: “uma Ilíada de desastres!” (p. 161); “a lua, entrando pela alta janela, desenhava no soalho um quadrado de luz, recortando em xadrez pelas barras das grades” (p. 174); “o rangido das máquinas juntava-se ao fragor duma cascata” (p. 149). 

Lukács diz que Manzoni é um poeta sóbrio que abriu um “caminho único para a grande concepção da história italiana (…)” (p. 93). Resta-nos admirá-lo. E aprender que a luta do povo por pão e justiça… “A trama é antiga, sabem?” (p. 141).

Léo

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