Lúcia

“Tudo deve mudar/Nada permanece o mesmo
Todos devem mudar (…)

Oh, oh, os mistérios se revelam/Porque esse é o caminho do tempo (…)
Exceto que a chuva vem das nuvens/A luz do sol do céu
E os beija-flores voam”
(Everything Must Change, na voz de Nina Simone).

Lúcia foi violentada várias vezes por seu padrasto. Sua mãe não acreditava, ou não queria acreditar, ou não tinha força para acreditar. O único caminho que restava para Lúcia era a fuga. Fugiu para se proteger.

Sem alternativa caiu nas garras da prostituição. Agora ganhava dinheiro pelo menos.

Lúcia era penetrada em todas as suas tocas. Só seu coração era um território inviolável. Sexo era sinônimo de mercadoria, violência. Lúcia não chorava, não reclamava, não xingava, não saia correndo… Aceitava. Não tinha casa para voltar.

Entre tantos fregueses, um pediu licença para entrar no quarto. Olhou-a nos olhos. E, sem pedir licença, vasculhou seu corpo: a chupou, dedos entravam, beijos volumosos, línguas. Secretos odores pelo ar. Outra dimensão do sexo.

Lúcia nunca mais o viu. Lúcia nunca mais foi a mesma depois de conhecer seu corpo e o corpo do outro.

Pegou seu dinheiro guardado e alugou um quarto e cozinha. Ficou pensando no que realmente gostava de fazer. Cozinhar. Fez um curso. Vaga de ajudante num restaurante chique para turistas.

Achava engraçado os gringos pagarem tanto por pratos, que só na aparência eram sofisticados. A estética prevalecia sobre o sabor. A aparência.

Lúcia foi convidada para ser chefe de cozinha no restaurante Soul Kitchen∗. Era administrada por dois irmãos malucos. Os frequentadores eram alunos de dança, os marginais que circulavam pelos arredores, trabalhadores mil. A garçonete era uma mulher livre e gente boa. O ambiente era outro. Tudo mais simples, divertido, com um toque de loucura.

Lúcia preparava seus pratos aliando beleza e sabor. Alimentavam o corpo e a alma. Lúcia fazia o que gostava. Lúcia era dona do seu corpo.

Na vitrola, Nina Simone…

Soul Kitchen é um filme alemão de 2009, dirigido por Fatih Akin. É um filme muito legal.

Léo

16 comentários em “Lúcia

  1. Tantas Lucias perambulando por este mundo cruel. Em todos os lugares o mesmo script é repetido: violação de menores por membros da família. A sorte de Lucía foi que ela encontrou um caminho mais alinhado com seus sentimentos pessoais. Nem tudo está perdido nas almas que sofrem o rigor das necessidades mais elementares da vida. Uma lição que exige reflexão. Bom deve ser o filme. Sua opinião é ótima. Saudações Léo.

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