Nina

“Quem disse que o amor é manso e delicado?”∗∗

 

Nina se cortava. Seu corpo era tatuado por giletes, agulhas, facas, tesouras, estiletes. A dor de dentro era tão grande que sentia necessidade de externá-la.

Cresceu numa casa cheia de cômodos. A solidão habitava todos eles. Nina vivia pelos cantos. Cada briga de seus pais recorria ao seu Kit de sobrevivência escondido, mas sempre à mão: objetos cortantes e curativos. O sangue se esvaindo era seu conforto. Alívio. Era autônoma em sua dor. Cortava-se. Curava-se. Procurava os recantos do corpo obscurecidos pelas roupas: coxas, ventre, ancas.

Só aos quinze anos – entre pratos jogados, copos arremessados, taças estilhaçadas, garrafas quebradas – esqueceu-se de seu mutilar nas sombras. Com uma faca de cozinha, diante de seus pais, apelou aos braços. Encarando-os. Golpeando-se em desespero… Não! Aparentando os cortes que jaziam sob a pele. “A faca só deixavam todos saírem”∗.

Seguiram-se longos anos de internação numa instituição de vida regrada, horários rígidos. “A vida era fácil”∗∗. Porém, a deixaram infantilizada e sem respostas. Mas não triste: “a gente sobrevive”∗. 

Não preparada para o mundo recheado de cortes profundos, volta para a mesma casa grande, em ruínas. Seu pai, pela vida. Sua mãe esqueceu-se do tempo passado e, ainda, a via como uma garotinha.

Numa tarde bastante chuvosa adentra um escritório de advocacia. Vaga de secretária. Dr. Eduardo entrevista uma mulher com ar de garota, cabelos escuros e longos, sem corte, roupas inadequadas, sapatos sem graça. Só o olhar… “Tem algo em você… seu olhar atento. Um muro”, a inquiriu. “Eu sei”, ela respondeu. “Vai se aborrecer”. “Quero me aborrecer”. “O trabalho é tedioso”. “Gosto de trabalho tedioso”. “Sou muito exigente. Não fica secretária por aqui”. “Eu ficarei”. “Consegue se soltar?”. “Eu não sei”∗∗ .

De noite, na banheira, sorria feliz: “Sou secretária. Sou secretária”.

Os dias foram adquirindo vida. Pastas em arquivos. Cartas digitadas. Depósitos em banco. Colheita de assinaturas. Aos poucos foi percebendo a solidão daquele homem escondida no perfeccionismo. Controlador. Dominador. “Suas roupas são de garota. Você é uma mulher”. Ela transforma seu guarda-roupa. “Sua mãe não precisa te trazer. Venha sozinha”. Ela passa a caminhar até o trabalho aproveitando as ruas. “Corte os cabelos”. Ela aprendeu como ele gostava de cada coisa, cada objeto. Trouxe flores para sua sala. Ele sorria, discretamente. Para um processo ou atendimento, as pastas já estavam sobre a mesa. Perguntas. Ela respondia prontamente. Compreensão mútua foi brotando.

Quando ela atendeu o telefone, reconheceu a voz de seu pai. Silenciou-se. Ao desligar, procurou seu kit de sobrevivência na gaveta. Cortou-se. Dr. Eduardo a observou. Chamou-a em sua sala. “Por que você se corta? Dor interna? Alívio?”. “Eu não sei”. “Você nunca mais vai se cortar, entendeu? Você  superou. Isso é passado, Nina. Você é uma mulher”. Nina joga seu kit no rio à caminho de casa. Ele não consegue mais viver sem ela.

Nina vaga pelas ruas, “(…) como se estivesse sendo arrancada de um lugar muito escondido dentro de si mesma”∗∗∗. Sem perceber a chuva que cai, toca a campainha. Eduardo vê uma mulher… encharcada, cabelos molhados… A pega no colo, enche a banheira, tira sua roupa, lava seus cabelos, seca seu corpo, beija cada cicatriz. Solidão rompida. Muros desfeitos. Curativos. Estavam prontos!

“Entre todas as histórias possíveis, certamente já terá acontecido alguma como esta” (Sérgio Sant’Anna, Um Conto Nefando?).

 

Sharp Objetcts, série HBO, 2018, USA. Direção Jean-Marc Vallée.

∗∗ Secretária, 2002, USA. Direção Steven Shainberg.

∗∗∗ As Cartas Não Mentem, conto, Sérgio Sant’Anna. 

Léo

    

17 comentários em “Nina

  1. Estou fora do blog há alguns dias. Você contou uma história para fechar os olhos e pensar na dor que algumas pessoas sofrem na vida. Conheço histórias que rasgam a alma, mas também outras que nos permitem acreditar que há justiça terrena e divina. Uma história que me vem muito profundamente, já que somente você pode fazê-lo. Bom para você e sua requintada caneta Leo.

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  2. Fiquei á espera de minha vista melhorar um pouco para ler teu conto… Nina de seu conto encontrou Eduardo (guardião: que a guarde sem roubar-lhe a liberdade…

    Nina é o nome de minha amada esposa…É amada… A Nina do Conto sempre quis ser amada.. Quem não o quer, não é mesmo?

    Curtido por 2 pessoas

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