Clara

Para Lima Barreto e Geisa

 

Clara era dos demônios! De criança soltava pipa, brincava com bola de gude, jogava futebol, trepava em árvores. E metia porrada nos garotos que a atormentavam, bravos , pois Clara quase sempre ganhava as brincadeiras. Na escola ficava num quieto. Muitas perguntas. Clara não gostava de respostas, gostava de desenhar. Povoava seus cadernos com criaturas imaginárias, sombrias, brincalhonas. A escola tinha, felizmente, muitas atividades extracurriculares: aulas de danças diversas, orquestra com instrumentos feitos de reciclagem, teatro, rodas de leituras… E, desenho. Aprendeu ali a dar melhores contornos aos habitantes de sua cabeça. “Crescera cheia de vapores”∗

Na adolescência descobriu a rapaziada do grafite. Haja muros! Haja fachadas, ruas, pilastras, tudo ganhando matizes. Clara assinava seus delineados com uma bruxa negra, como ela, cabelo black, como dela, e uma vassoura de todas as cores. Pois sempre largava seus pensamentos em voos, “largas perspectivas de sonhos, erguia desejos, despertava anseios e visões douradas”∗. Com sua vassoura imaginária, “flutuava por cima dos telhados, penetrava de mansinho nos lares, quedava-se junto de várias criaturas, acompanhava seus movimentos íntimos”∗∗. Clara passava as madrugadas grafitando, fugindo da polícia. O spray era sua arma.

Um dia seu bairro calmo e plácido foi sacudido por tratores e escavadeiras. Falava-se em desapropriações, construção de túnel e uma nova rodovia, que ligaria o nada a lugar nenhum. O prefeito – todos sabiam – tinha dívidas eleitorais com uma certa empreiteira. Assim achou um modo de pagá-las sem consulta nenhuma aos moradores. O bairro se enfureceu. Organizaram-se em conselho. Tentativas de reunião com a prefeitura, vereadores. Nada. O poder se achava acima do povo. Deliberaram um grande protesto. Os que sabiam dançar, dançariam; os que sabiam tocar, tocariam; os religiosos de todas as tribos, culto ecumênico. Professores redigiram um abaixo-assinado. Contato com a mídia. Clara convocou a rapaziada. 

O dia marcado amanheceu com grafites nos tapumes, escavadeiras, tratores. Pneus foram queimados. Rádio e TV dando cobertura. Todos os moradores presentes. “Quem constrói nosso bairro somos nós mesmos”. “A dívida não é nossa”. “Nossa organização deterá estradas e túneis inúteis”. Como a movimentação foi grande, o prefeito cismou de aparecer. Tentou justificativas injustificáveis. “Bem da comunidade”. “Progresso”. E, blá, blá, blá. 

Clara e sua turma tinham levado outras armas desta vez. Tomates e ovos voaram por cima da autoridade máxima da cidade. A “chuva” foi tanta que nada mais restou senão a fuga do safado, sob vaias, risadas, pedras, assobios, pontapés. 

Que rodovia que nada. Clara e seu bairro, eram dos diabos. 

 

∗ do conto de Lima Barreto, Clara dos Anjos.

∗∗ do conto de Aníbal Machado, O Defunto Inaugural. Relato de um fantasma.

Léo

 

15 comentários em “Clara

  1. Nada mais refrescante do que começar o ano com uma emocionante leitura sobre as idas e vindas de Clara. Uma história para retratar as injustiças daqueles que estão no poder e que nunca se importam com o bem-estar dos outros. Sua escolha foi a melhor. Tenha um ano dos melhores deste 2020. Que a alegria de suas letras esteja sempre presente e que o otimismo seja seu companheiro de viagem em sua vida. Um grande abraço.

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  2. Minha mãe se chama Clara, sempre foi brava, mas, braveza apenas aos próximos/próximos… Às autoridades sempre sobraram aplausos… Foi o que ela aprendeu aí no Paraná e aqui em Minas… Tento há anos me descolar destas características… E, me aproximar da Clara dos anjos… Minha mãe que me perdoe…

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