Carmen

“São os improváveis que, de repente, se veem esculpidos por novas luzes” Chamoiseau e Glissant (Le Monde, 26/8/2007, citado em A Arte De Ler Ou Como Resistir À Adversidade, Michèle Petit, Ed. 34, 2009, p. 21).

 

Num dia besta e sem graça, Carmem atende o telefone. Toríbio Medeiros se apresenta e comenta sobre os livros que ela escreveu. Um convite. Participar de um evento no Parque Cultural de uma cidade próxima de Belo Horizonte. Carmem, assustada, diz que nunca se apresentou publicamente. Então está na hora, rebate com firmeza Toríbio. Após segundos de silêncio… Sim, diz ela. Por que não? Pensou.

Entre mensagens para acertos do evento, conversam sobre si mesmos. Ele coordena o Parque já algum tempo. Sente-se realizado. Mora onde gosta. Solitário. O único amor conhecido é o do pela arte. Ela trabalhou anos a fio num grande escritório, entre gravatas e engravatados orgulhosos de suas vidas medíocres. Por mais de trinta anos aguentou um dia a dia torturante de sobrevivente. Casada por duas vezes e sem alegria, desistiu dos homens. Lia muito. Preencher o oco da vida. Seguia os conselhos de Marguerite Duras: um livro substitui o meu tempo pelo dele e o caos da minha vida pela ordem da narrativa. Aposentada, foi morar num casinha de um bairro pobre e distante, onde só a tristeza chegava. De tanto ler, foi invadida pela escrita. Livros.

Conversas feitas. Acerto final. E Carmem, mais trêmula em encontrar Toríbio do que enfrentar uma plateia de adolescentes. Embarque. Aeroporto. À procura de alguém portando um cartaz com seu nome, ouve um chamado. O bonito Toríbio. No trajeto até a cidade, conversam como velhos amigos. Paira uma necessidade louca de se tocarem. Os gestos ficam em suspenso. Promessas.

Pousada aconchegante, árvores e bancos à sombra. Descanso. Percorre a cidade, mas não acha o pacato. Entre borboletas e pássaros, carros e buzinas, uma gente bonita e falante. O ar tinha sabores e cheiros de vida. Compreendeu Toríbio. Gostou. Sentiu-se em casa.

No encontro, Carmem calma e serena, olhares brilhantes e atentos. Contou sobre sua vida áspera e as bonitezas de se criar histórias. Perguntas. Rodeios. Risadas. E os olhos de Toríbio sempre procurando os seus. Ei, delícia.

Mais tarde, no quarto, dois seres solitários se acham. Trancam a porta e se destrancam. Lágrimas escorrem pela face de Carmem. Toríbio, suavemente, começa a sugá-las, depois a boca…

Assim, de um dia besta e sem graça, brota o improvável. Flores, cores. Perfume.

Léo 

 

 

13 comentários em “Carmen

    1. Brunno, nem imagina o que ando sentindo em escrever contos. Um lugar onde não pensei que chegaria. Escrever sobre os livros para mim estava de bom tamanho. De repente, a escrita me invadiu. Que bom que gostou. Que bom que retornou. Na torcida por ti.

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  1. Concordei com tudo que escreveu na carta.
    Eu ainda fiz um comentário com a parte que me foi dirigida. Só usei o espaço p comentários.
    Parece estar passando um momento difícil e falta alguma maturidade no contato com seus seguidores, mas parece q um não pensa assim.
    É como diz a canção… Esses moços, pobres moços, se soubessem o que sei (eu não rsrs). Lupicínio Rodrigues

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