Débora

Para um amigo.

 

Débora toca guitarra numa banda de blues. Banda só de mulheres.

Joana, a Jô, é a baterista. Casada com José e tem uma filha, Juliana. Era a família dos Jotas, as garotas brincavam.

Mirela toca baixo. A única que vem do conservatório. Estudiosa. Faz os arranjos.

Sandra no sopro. Gosta do sax, trompete, gaita. Aprendeu música com seu pai, professor. Ela que montou a banda. Anúncio de jornal. Apareceu cada figura. Várias formações. Até que Mulheres Blues aconteceu. E ficou.

Vera é a vocalista e compõe as letras. Poeta. Lê poesia o tempo todo. Está lendo poemas pré-islâmicos no momento. Solitária. Filha mais nova, cuida da mãe.

Débora está apaixonada por Vera. Vera nem desconfia. Amor em segredo. Débora é tímida. Só se mostra na música. Aprendeu sozinha fascinada pela guitarra. Nasceu para isso. Faz acordes “como corpos se conhecendo… como se estivesse tocando o corpo da amante”. 

Vera pouco se mostra. Mal termina os ensaios, já vai embora alegando os cuidados com a mãe. Quando viajam, mal termina a apresentação, corre para o quarto de hotel ligar para a mãe. Só uma vez disse algo mais pessoal: se sentia plena compondo, ensaiando, soltando a voz.

Débora fica impressionada com Vera cantando. Parece que seu coração, sua alma, está em desfile. Voz rouca, doce e forte ao mesmo tempo. Sensual. Negra encorpada, vestidos soltos, seios levemente escapando pelo decote, e sempre descalça. Ora canta sentada numa banqueta, intimista, voz de pássaro. Ora toma o palco com idas e vindas, numa dança, como um demônio, uma bruxa. Voz de trovão. Débora só observa, se delicia. Como a desejava! 

Mulheres Blues tocam sua canções, e no final da apresentação, fazem uma homenagem. Gostam muito de Nina Simone, Billie Holiday.

Foi no festival de Jazz de Morretes. Nos ensaios, Débora propõe a música de homenagem, I Put A Speel On You (Eu colocarei um feitiço em você).

Em Morretes, no final do show, no momento de  Put… a magia aconteceu. Débora faz um lindo solo de guitarra, olhando, encarando, absorvendo Vera. Vera, como possuída, gritava tão suavemente o I love you que a plateia silenciou. Ela vira-se para Débora. Os olhares se encontram. O feitiço da música era delas. O I love you era delas. Tudo sumiu. 

Só um holofote solitário ilumina duas mulheres frente a frente. Guitarra, voz, feitiço. I love youI love you… I love you!

Estão juntas até hoje. 

Léo

11 comentários em “Débora

  1. É muito difícil evitar o encanto que suas palavras dão vida a um amor nessas dimensões. A mágica está na sua história. Você nos faz voar para o infinito, descrevendo a eterna mágica do amor. Você nos faz vibrar com seu poema e sinto-me com sorte de lê-lo. Saudações

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