Lia

” (…) a luz não precisa de um meio material para se propagar: ela se propaga sozinha, mesmo no espaço vazio” (Criação Imperfeita, Marcelo Gleiser).

 

Professora de matemática na periferia, Lia gostava de mostrar, por trás das equações, o esplendor do abstrato. Contraponto aos desmazelos do cotidiano pobre, e quase sem esperanças.

Via nos olhos dos adolescentes um brilho de febre, uma fresta, ao desenrolar o equilíbrio do triângulo, a perfeição do círculo, a elegância do quadrado e a timidez do retângulo.

Quando, no ano passado, a escola foi ocupada pelos alunos, percebeu que, talvez, o abstrato tivesse tomado forma: de vítimas, saltaram as amarras e tomaram as chaves. Por um período todos compreenderam que era possível domar o destino, já que o movimento de ocupações se alastrou serpenteando o país.

Depois a rotina foi retomada, só os lampejos permaneceram naqueles corpos jovens. E Lia sentia-se mais a vontade ao falar de teoremas. 

Sua vida corria em paralelas. Tinha morado com um cara que mais parecia um de seus alunos. Cansada de ser sozinha acompanhada, aproveitou um acidente de sua mãe e retornou ao seu antigo lar. Presa aos cuidados que o estado de sua mãe exigia, aos dramas de uma escola num bairro pobre, Lia gostava de pensar. Tinha estudado também física. Via a beleza de um buraco negro, onde quase nada escapa, e na luminosidade, no brilho, no fulgor, da luz. Entre realidade e possibilidades, ia construindo pontes, devaneios, sonhos, delírios, num dia a dia duro e espinhoso.

Quantas vezes acordava de madrugada, suando, sem acreditar que o lado do então sonho finalmente pendesse e se aflorasse. Quantas vezes ao despertar de manhã para uma rotina carregada não desconfiou que sua vida seria a mesma pela eternidade de seus dias. Preparar o café, ajudar a mãe, corrigir cadernos, provas, trabalhos, se deslocar até a escola, se esforçar no abstrato, dar luz ao cotidiano de seus alunos, enfrentar reuniões intermináveis e inúteis… Quantas vezes chorou sem esperanças… Quantas vezes se sentiu num buraco negro e seu coração procurando a luz… Assim Lia seguia seu curso entre tangentes dos ângulos, senos e cossenos.

Sua mãe morreu timidamente como viveu. Uma tristeza enorme. Entre os rituais da morte e sua burocracia, a preparação do funeral, Lia pensava na existência dura de sua mãe. Vida sem gosto, cumprimento de tarefas, sempre cuidando de outros, sem luz própria. A casa enorme. O vazio. Aquela angústia de pensar que, afinal, tudo é mesmo assim. Sua cabeça já não fervilhava de ideias. Sentia-se como dois e dois são quatro. Esquecia-se das abstrações. Seus olhos apagados no cinza.

Uma noite, cansada, ligou a TV como um autômato sem prestar atenção. Esperando as notícias de barbárie dos noticiários, percorrendo os canais sem nada esperar, eis que surge um documentário: Nostalgia Da Luz, Patrício Guzmán, chileno. Poético, sensível. Falando do passado vasculhado pelos arqueólogos nas entranhas de Atacama; do passado assombrando – ainda – o presente dos parentes dos desaparecidos pela ditadura de Pinochet; do passado dos céus perseguido pelos astrônomos. Todos se enamoravam do céu de Chile, o mais límpido da Terra, lembrava o narrador. Lia também se lembrou com nostalgia da luz, dos buracos negros, da imensidão do universo. Sua vida não poderia ser limitar aos cinzentos dos dias.

Lia conseguiu uma bolsa de estudos e foi para o deserto de Atacama, Chile. Sentiu-se em casa. Como um planeta, andarilho viajante.

 

“Ver o Mundo num Grão de Areia

E o Firmamento numa Selvagem Flor

Segurar o Infinito na palma da mão

E a Eternidade numa hora que for”.

William Blake.

Léo

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