Irene

“este dia

este perverso dia

que veio depois de ontem”

Paulo Leminski.

 

Irene acordou às três da madrugada. Tinha dormido pouco. Revirou na cama e o sono a abandonou. Minha vida é uma merda, pensou.

Nascida numa família numerosa e pobre, no interior, pai bêbado, mãe ausente. Irene aceitou um emprego na capital. Foi morar num quarto e cozinha na periferia. De emprego medíocre em emprego medíocre, acabou como caixa num supermercado. Ganhava mal, trabalhava muito, mas era relativamente perto e ia à pé, uma pequena vantagem.

Irene gostava mesmo era de trepar, trepar muito. Qualquer tipo de homem. Atos ligeiros, sem floreios, sem muitas preliminares. Gostava de ser penetrada pelo outro, como se assim sua vida patética tivesse um ápice. Alguns minutos em que não pensava em nada. Só em foder.

Porém uma festa aconteceu. Bêbada, trepou com outro bêbado. O problema é que foi sem proteção. O sangue mensal faltou ao encontro. Grávida, mal se lembrava de quem, sem dinheiro para o aborto, se viu numa situação em que só poderia esperar. Lucas nasceu. E ela suportou, como suportava tudo em sua vida.

Trocou sua cama de casal para uma de solteiro, sobrando espaço para o berço. Vaga na creche. Fazer hora extra. E alimentar mais um.

Que chance tenho agora? Nem foder mais conseguiria. Sem tempo. Cansada da labuta do supermercado, do filho. E sem aqueles minutos em que a vida desaparecia.

Agora deu de acordar de madrugada com a angústia a assombrando. Que merda de vida!

Acordava todos os dias às cinco e meia da manhã. Banho, café, marmita, Lucas. Ele na creche, ela, ao trabalho. Bater cartão, arrumar o caixa, contar a grana. Bom dia, boa tarde. Passar no código de barra produtos que não poderia comprar. Bater cartão, creche, casa, lavar roupa, fazer comida… E acordar de madrugada maldizendo a vida.

Dia desses reparou no responsável pelo estoque, Mateus. Pele morena, olhos profundos. Bonitinho, até. Ela tinha uma regra: nunca trepar com colegas de trabalho. Complicado demais. Mateus sempre gentil. Já tinha percebido seus olhos pousando sobre ela. Tímido. A primeira vez que teve coragem de lhe falar, perguntou sobre o Lucas. Mal olhou em seus olhos. Irene gostou. Achou graça no nervosismo dele. Foi percebendo que na hora do almoço, no refeitório, ele estava lá. Sempre um lugar ao seu lado. Talvez por cansaço, talvez por nada esperar, começou a se sentar ao seu lado. Entre garfadas e marmitas, iam falando amenidades, bobagens. E começaram a sorrir um para o outro. Fazer gracejos. Se procurarem entre prateleiras, mercadorias, clientes, dinheiros, e produtos.

Quando se deu conta, acordava de madrugada pensando nele. Dormia de novo. Queria que o dia amanhecesse rápido. Mateus a aguardava.

Foi numa festa de final de ano do supermercado. Ele perguntou se ela iria. Nunca fui, respondeu, me sinto deslocada. Seria bom para o Lucas, a festa será numa chácara, disse ele. Posso passar na sua casa, insistiu. Irene se sobressaltou. Não esperava por isso. E, mais assustada ainda ficou, ao aceitar o convite.

Lucas e Mateus se conheceram. Ficaram juntos – os três – na festa sem graça do supermercado. Mas havia luz naquele encontro. E se viram muitas vezes depois. Quando finalmente transaram, não foram somente poucos minutos… Tudo era bom.

Irene agora acorda de madrugada só para olhar Mateus. Beijá-lo. Trepar. A angústia se foi. E o novo dia já não era mais perverso. 

Léo

33 comentários em “Irene

  1. De traz pra frente em relação a maioria dos contos… A tristeza é mais contada que a felicidade… Perdemos a era dos contos de fadas…
    Seu conto é um recorte, não sabemos como termina… Mas já valeu a pena por ter existido… Talvez daqui a dez anos esse casal já não estará mais junto… Mas trouxe felicidade em um momento, trouxe um alívio, então valeu a pena…

    Curtido por 1 pessoa

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