Telemarketing

“Súbito, arrebentando a horrenda calma
Grito, e se grito é para que meu grito
Seja a revelação deste Infinito

Que eu trago encarcerado na minha alma”

Augusto dos Anjos

 

— Até amanhã.

— Até amanhã.

Desligou o telefone. Olhou o relógio: 10 h 35′. Cada vez conversavam menos. Há dois anos e meio chegaram a se falar por mais de três horas. Ele ligou oferecendo alguma coisa que ela não aceitou. Ele disse que sua voz era bonita. Ela também gostou. Falaram do tempo, mal do governo, reclamaram dos preços. Ele perguntou se poderia ligar no dia seguinte. No mesmo horário? No mesmo horário. 

Era possível medir o tempo do seu dia por este telefonema. Ela o imaginara negro, cabelos pretos, corpo esbelto. Como aquele ator de cinema quando era novo. Ela com oitenta quilos, branca e baixa.

Ela tinha sido casada por mais de quarenta anos. Sem filhos. Os parentes foram morrendo pelo caminho. Restava-lhe aquela voz ao telefone às 10 horas da manhã.

Acordava muito cedo. Tomava café. Caminhava até uma ponta da praia. Sentava-se na pedra e presenciava o nascer do sol. Como um soldado na trincheira. Contemplava, como se fosse o último. Deixava-se levar. Liberava os pensamentos. Recordações. 

Ela garota, as parcas brincadeiras de infância, os irmãos mais velhos, a rigidez da mãe, a ausência do pai. Demorou muito tempo para que entendesse sua mãe. A falta de carinho. Nunca bom dia. Nunca um sorriso amável. Nunca afagos nos cabelos. Tinha nascido temporã, seu irmão mais novo tinha nove anos. Sem ser prevista, seus pais – católicos rígidos – assumiram o erro. E ela se contentou com este papel que a vida lhe deu: um erro.

Solitária desde menina, foi construindo um mundo próprio. Gostava da dança, dos movimentos, dos gestos amplos das mãos querendo tudo abarcar, estirar o corpo, ficar nas pontas dos pés almejando o voo. Sentia-se plena com suas roupas coladas e  esvoaçantes. Dançar. Esquecer. Soltar-se.

Foi sua única ideia de felicidade. Talhada para o casamento, sua mãe a preparava. Como se ela, a mãe, infeliz, tivesse que passar o bastão. E, assim, sem cartas de amor, sem olhares lânguidos, nada de promessas, nada de futuro, cumpriu sua missão. Esposa de um contador, aparecia no cômputo como despesa. Despesa necessária. Cumprimento de um padrão social.

Filhos não se concretizaram. Gastaram anos nesta busca. Não que ela quisesse ou sentisse necessidade. Era só mais uma tarefa. E nem o fato de não ter conseguido a alterou. Respirava, só isso. E sem a dança. Para o contador, os gestos em voo não cabiam em nenhuma escrituração.

Quarenta e poucos anos depois, a contabilidade foi desfeita. Ela, capenga, sobrando numa das colunas do balancete da vida, balanceada.

O sol nasceu. Volta para casa. Lava a louça, põe a roupa na máquina de lavar, varre o chão, recolhe o lixo. 

São dez horas da manhã. O telefone toca.

 

Léo

11 comentários em “Telemarketing

      1. Dois anos e meio… Cada vez falando menos… Mesmo assim mantêm a obrigação criada… Parece um casamento… Ela deveria não atender e procurar outras ligações… Voltar a dançar outras músicas… Nunca viveu e se deixou levar por uma ligação… Que triste…

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      1. Ontem me perguntei até quando vou viver este cotidiano mediocre em que estou metida. E pq tenho feito tão pouco, quase nada para sair deste lugar….

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