Dois cadáveres para uma loura

Sérgio Sant’Anna (50 Contos e 3 Novelas, S. P.: Companhia das Letras, 2007) escreveu um conto, Dois Cadáveres Para Uma Loura. “Dois homens e uma mulher, cujos nomes podem ser, perfeitamente, Tatiana, Maldonato e Jan. Estão diluídos na obscuridade, talvez da madrugada, ou porque se encontram num porão” (p. 60). A partir daí vai construindo várias hipóteses. Jan e Maldonato se esfaqueando por Tatiana; são fugitivos de um assalto de banco; estão em Londres ou no período da colonização americana; são manequins ou sombras… “Ou, talvez, personagens de um livro que ainda não foi escrito. Nesse caso, encontram-se eles — Tatiana, Maldonato e Jan — à espera de quem os escreva” (p. 62).

Pasmem! Aceitei o convite. Transformei a beleza e o encantamento dos contos de Sant’Anna em alavanca para romper minhas amarras. Tenham paciência, caros leitores, estou engatinhando. Lá vai minha hipótese. 

 

Dois Cadáveres Para Uma Loura

 

Tatiana abre a porta do porão num começo de noite. Na penumbra mal consegue ver um colchão no chão. Tira a peruca loura, mostrando cabelos curtos e esbranquiçados, senta-se no colchão e acende um cigarro. Chegara esbaforida e espera Maldonato e Jan neste ponto de encontro. Os três eram de uma organização clandestina nos idos dos anos setenta. Luta armada contra a ditadura militar. Não se conhecem. Os nomes, Tatiana, Maldonato e Jan, são na verdade codinomes. 

Depois da missão achou que se sentiria nervosa, tensa. No entanto, olha para si e vê uma calma de quem tinha feito o que era certo. Missão cumprida. Dois cadáveres.

Maldonato dá as pancadas na porta conforme o combinado. Jan chegaria depois, já que sua tarefa era dar conta dos cadáveres. 

Algumas semanas antes, Tatiana viu numa reportagem de TV, dois homens que iriam integrar a nova equipe do governo recém-eleito. Congelou. A dor, a humilhação, a raiva, o ódio, voltaram a florescer. Sua reinvenção de vida tinha sido dolorosa. Mas, conseguiu. Só o ódio acalentou baixinho num canto do coração. Na tela da TV, dois senhores sóbrios,  porém com largos sorrisos, dispostos a contribuir com a nação: seus torturadores. 

Ela não militava mais, a organização tinha se esfacelado. Porém, sua consciência sempre manteve ativa. Poderiam ter torturado seu corpo, mas não ganharam sua adesão. Ainda tinha um caderninho com alguns contatos. Procurou. “Aqueles filhos da puta não podem se livrar assim”. Marcou um encontro com uma mulher que tinha sido sua direção no organismo. Traçaram um plano. Maldonato seguiria os torturadores, mapearia suas agendas. Jan se encarregaria dos corpos. Tatiana faria justiça. Tinham que agir rápidos, antes da posse.

Jan chega ao esconderijo com garrafas de vinho. Tudo certo. Chegara a hora! Saca o sacarrolhas. Vinho aberto e distribuído. Três desconhecidos na mesma vitória. O que a sociedade, o coletivo, não tinha dado conta, esses remanescentes de uma organização clandestina tinham dado cabo. Dois cadáveres. Uma justiça. Um brinde foi feito. O nervosismo dissipou-se. Alegres, como nunca estiveram, riram alto, esquecendo-se do perigo. Feridas cicatrizadas. 

Dançaram sem música. Valsaram. Maldonato olha Tatiana. Ela o beija suavemente. Jan os abraçam. Roupas incomodam.  Carícias. Delícias do corpo do outro. E depois do outro. E a outra se nutrindo de todos os anos de lamentos. No anonimato, sem nomes, na penumbra, num porão de uma cidade qualquer, três corpos se beijam, se chupam, se acariciam, se enroscam. Ora um, ora outro. Outro com outro. Três. Dois. Dois em um. Três. Cansados, adormecem.

Pouco se vira do dia amanhecer. As roupas de volta ao corpo. Olhares felizes. Corpos em descanso. Abrem a porta. Olham-se alegres. Cada um, um trajeto. Três caminhos. Três destinos. Uma justiça! 

 

Léo

 

 

 

10 comentários em “Dois cadáveres para uma loura

  1. Primeiro conto. Engatinhou nas escritas dos outros e agora caminha. A literatura tornou-se seu mundo. Ainda bem que posso compartir seus caminhos. Que venham outros. E outros… Beijos

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  2. (Nossa, que emoção!!!) Um lindo conto.
    Desperta a escritora; desbrava a floresta das palavras sem fim, compõe seu caminho e segue; engatinha, anda, caminha, escreve. E enquanto ela com as palavras brica, se ergue.

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  3. Uauu! Grande estreia. A valentia dos que lutaram nos anos de chumbo, uma boa homenagem, e ainda com uma boa dose de romance e calor. Parabéns guerreira! Justiça seja feita

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