Sem Rastros: consequências de uma guerra!

“A guerra dará vazão a todos os instintos, a todas as formas de bestialidade… (…) a guerra joga de alto a baixo toda a existência” Minha Vida, Leon Trotsky.

 

 Sem Rastros é um filme norte-americano dirigido por Debra Granick de 2018. É a mesma diretora de Inverno da Alma, 2010, outro filme muito bonito. Will (Ben Foster) e sua filha de treze anos, Tom (Thomasin H. Mckemzie) vivem numa floresta que é parque público em Portland. Vivem rusticamente e escondidos. Ele, um veterano de guerra traumatizado.

A força do filme está nos poucos dados apresentados. Você vai descobrindo aos poucos. Aliada aos atores excelentes, ótima fotografia e boa trilha sonora. Os olhares das personagens são sedutores, fortes. O medo está no olhar e nos gestos do pai. Tom, olhar atento, de busca, inquieto. Ele a ensina sobrevivência, ler, escrever, jogar xadrez. Uma relação harmoniosa. São cúmplices. Todo dia uma trilha nova. Não deixar rastros.

Porém, um incidente os denuncia. A polícia e a Assistência Social – em nome da mesma sociedade que transformou Will em veterano e traumatizado – exigem suas remoções: “É ilegal morar numa área pública”, sentenciam. Pai e filha são separados. Submetidos à testes absurdos. “Eles não entendem que a minha casa era lá”, diz Tom. O serviço social constata que Tom está à frente dos que vão à escola regularmente: “você a criou bem”. Apontam como saída Forest Park – plantam e cortam pinheiros de natal para venda (???); dão-lhe casa, roupas, sapatos; querem matricular a filha numa escola convencional. Insistem para que participem de um culto religioso para se integrarem. A religião ocupando o papel do Estado oferecendo atividades socializantes e culturais. “Agora está tudo diferente”, diz Tom.

A assistente social lhes advertem: “É importante fazer tudo certo para manter a independência de vocês”. Seria cômico se não fosse trágico. Cortar árvores para quem vivia numa floresta? “As roupas são deles. A comida é deles. A casa é deles”, constata Will. De que independência falam eles? Como  integrar-se se ele está partido?

Acontece que Tom começa a gostar da socialização. Fogem, mas por iniciativa de Will. A divisão de caminhos vai se delineando. “O que está errado com você não está errado comigo”. Aí a riqueza do filme se aprimora. Sem respostas prontas. Uma profunda compreensão das personagens. A última cena é uma bonita teia de aranha. E, após os créditos, uma folha em forma de cavalo-marinho. Os cavalos-marinhos vivem juntos a vida toda, aprendi no filme.

Se “a guerra é a continuação da política por outros meios” (Carl von Clausewitz), até quando suportaremos estes senhores? 

 

Sem rastros
Cartaz do filme

Léo 

8 comentários em “Sem Rastros: consequências de uma guerra!

  1. A democracia moderna (ironicamente, aliás) oferece-nos pequenas doses de esperança a cada quatro anos… E parece que o único discurso que ela tem bem decoradinho é essa falácia do «o indivíduo vota, o indivíduo participa, o indivíduo toma as decisões». Mas daí as eleições passam…

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    1. As eleições são falácias, espetáculo. O candidato é um produto. Temos que tomar a história em nossas mãos. Precisamos transformar o mundo. Inclusive pela nossa própria sobrevivência e a do planeta. E as guerras não nos interessam, não são nossas.

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