O Amante

“Muito cedo na minha vida ficou tarde demais. (…) Tenho um rosto destruído”. Marguerite Duras, O Amante.

 

Foi numa madrugada. O sono me abandonou. Há tempos que sigo o meu próprio fluxo. Levantei e liguei a TV. Começa o filme O Amante, de 1992, dirigido por Jean-Jacques Annaud. Sensível. Bela fotografia. Bons atores. O que me levou ao livro.

O Amante, Marguerite Duras (Editora Círculo do Livro, SP), foi escrito em 1984, Paris. O romance é como um jogo de espelhos, o que se lê é o reflexo, e através do reflexo se insinua o real, o subentendido. O tempo presente nunca está presente. O jogo é entre um passado e um futuro; um como reflexo do outro. Frases curtas. Parágrafos curtos. Capítulos curtos. O dito e o suspenso. Memória. Porém, cada frase é cheia de conteúdo.  A primeira e terceira pessoa se alternam na narração como miragens. Mesmo sendo linear, o filme captura o espírito do livro: infelicidade, tristeza, dor, amor entrelaçado com o ódio, o prazer da descoberta do corpo permeado com as duras convenções sociais.

A narrativa é de uma garota de quinze anos e meio escrita por uma senhora de “rosto destruído”. Mora em Vietnã ocupada pela França, na Indochina Francesa. Ela é branca, de família que tinha posse mas perdeu tudo. É pobre, miserável. Fora de lugar. Sem identidade de classe: “Há muito tempo não tenho vestidos que sejam só meus. Todos são do tipo saco, velhos vestidos reformados de minha mãe (…)” (p. 22). Sua relação com a família é um misto de amor, ódio, abandono, solidariedade, força e loucura: “Jamais bom-dia, boa-noite, bom-ano. Jamais obrigado. Jamais falar. jamais a necessidade de falar. Tudo continua mudo, distante. É uma família talhada na pedra, petrificada numa solidez sem nenhum acesso. A cada dia tentamos nos matar, matar” (p. 54). Sua mãe, viúva, uma deslocada professora primária: “Ela deve ter ficado em Saigon de 1932 a 1949 (…). Digo-lhe que de minha mãe vou separar-me um dia, que, mesmo minha mãe, um dia deixarei de amar. (…). Digo que em minha infância a infelicidade de minha mãe ocupou o lugar do sonho. O sonho era minha mãe e jamais árvores de Natal, sempre ela, só ela, fosse a mãe esfolada viva pela miséria ou a mãe descontrolada que pregava no deserto (…)” (pp. 30, 46). Seu irmão mais velho é o poder: “Não posso lutar contra essas ordens mudas de meu irmão. Faço-o quando se trata de meu irmão mais novo. (…). Digo que a violência de meu irmão mais velho, fria, insultuosa, acompanha tudo o que nos acontece, tudo o que temos passado na vida. (…). (…) sofre por não poder praticar o mal livremente (…)” (pp. 53, 54, 59). O irmão mais novo é a fragilidade. Nenhum dos personagens tem nome. Só o irmão mais novo, Paulo, mas isso pouco representa; e personagens femininas secundárias, outros espelhos.

Deste universo brota o prazer. O amante é um aristocrata chinês. Ela descobre seu corpo em um quarto em Cholen, bairro mal-afamado: “Sinto-me mal subitamente. Um pequeno mal-estar passageiro. É o coração batendo forte, descompassado, na ferida viva e fresca que ele acaba de abrir (…)” (p. 49). Ele chinês, rico. Ela branca, pobre. Ele mais velho. Ela, uma garota. Tragédia anunciada. Amor impossível. “Durante todo o tempo da nossa história, durante um ano e meio falamos sempre assim, nunca de nós mesmos. Nos primeiros dias já sabíamos que uma vida em comum não era possível, por isso não falávamos nunca sobre o futuro (…)” (p. 49). Ele, que a ama, é frágil pela riqueza de seu pai. Fraco para abalar as convenções. No filme, ele diz “eu não sou nada sem a riqueza do meu pai”. “Ele me dá banho, me lava, tira a espuma do sabonete (…)” (p. 62). “Fazendo amor, ele chorava. O pai ia viver. Sua última esperança perdida” (p. 80). Ela compreende bem a impossibilidade e sabe as consequências, é vista como uma prostituta infantil, “mas sei que esse quarto é o que eu esperava” (p. 45). O uso, a “caridade”, o dinheiro imperando, o jogo. “Ele lhe arranca o vestido, joga-o longe (…) e a leva nua para a cama. Então, vira-se para o outro lado e chora” (p. 39). Ela só se permite ao choro, no navio, partindo.

A saída da garota é a escrita. “A história da minha vida não existe” (p. 11). “Quero escrever. Já disse a minha mãe: o que eu quero é escrever. Nenhuma resposta na primeira vez. Depois, ela pergunta: escrever o quê? (…). É contra, não é uma coisa meritória, não é trabalho, é uma brincadeira — ela me dirá mais tarde: uma ideia de criança” (p. 23). É sua salvação. A mãe, bem ela, “ela se transformou em escrita” (p. 30).

Marguerite Duras nasceu no Vietnã e teve sua infância num lugarejo próximo a Saigon, de acordo com a apresentação do livro. “Escreveu trinta e cinco romances, quinze peças teatrais e mais de quinze roteiros de cinema (o mais conhecido deles, Hiroshima, meu amor).  Morre em 1996. “Eu preciso que gostem dos meus livros”, diz ela. Eu fui arrebatada. 

Léo

12 comentários em “O Amante

  1. Muito bonito a descrição do filme e do livro. Reflete bem o que se queria passar. Seus textos sempre trazem a curiosidade e a vontade de conhecer o que foi descrito. É mágico…

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  2. “Vou escrever livros. É o que vejo para além do instante, no grande deserto que se afigura como a extensão de minha vida”. Comecei a tatear o deserto com esse livro. Deserto-ponte. Seu texto corporifica o sensível da narrativa, faz-se pele, com cicatrizes. E nóis lacrimeja daí!

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