A periferia tem voz!

“(…) Você cresce no gueto, vivendo de segunda classe/E seus olhos cantam uma canção de ódio profundo (…)” The Message, Grandmaster Flash and the Furious Five.

teatro hip-hop
Sobrecapa do livro

Não foi uma leitura. Foi uma experiência. O livro Teatro Hip-Hop de Roberta Estrela D’Alva (Editora Perspectiva, SP, 2014) é práxis. A autora nos conduz pelas mãos e descortina um universo com os holofotes da Academia. “Quando chegou, Estrela D’alva, luminoso nome, codinome e anúncio, no espaço incolor que se insiste em chamar de Academia, senti a mudança: em seu porte, a arte de dizer, um teatro que se assenta na construção de um novo mundo, intenso e mais justo, nascera para improvisar, interagir” (Jerusa Pires Ferreira, orientadora da pesquisa que originou este livro). Iluminou a Academia por sua própria necessidade de estudar, de reflexão sobre seu trabalho e sua prática: “A pesquisa, a leitura e a escritura não são práticas distantes para muitos artistas do palco (…). Mas, no processo de elaboração de uma obra cênica, o material gerado pelo estudo teórico acaba por se amalgamar à performance e se materializa na representação (…)” (p. XIX), nos ensina Roberta na apresentação do livro. Práxis.

Estrela D’Alva participa do Núcleo Bartolomeu de Depoimentos,  coletivo artístico de São Paulo, de formulação inédita do teatro brasileiro, o teatro hip-hop, “(…) linguagem surgida a partir da junção de elementos do teatro épico (mais precisamente o difundido pelo dramaturgo alemão Bertolt Brecht) e da cultura hip-hop” (p. XX).  Durante pesquisa para o espetáculo Vai Te Catar!, de 2008, se depara com “enorme quantidade de materiais existentes” sobre oralidades e o universo da poesia falada, ” (…) escritos sobre o rap, o spoken word, a poesia beatnik e sua relação com o be bop, os trovadores, os jograis, os rapsodos e toda sorte de poetas: os medievais, os repentistas brasileiros, os poetry slams, as competições de poesia entre os gregos na Antiguidade, os griots, os poetas americanos ligados ao movimento negro dos anos 1960 e 70 (…)” (p. XIX) e se debruça sobre Paul Zumthor, Performance, Recepção, Leitura.

A cultura hip-hop é esmiuçada no primeiro capítulo. Vai além de um “movimento artístico ou estético, um estilo musical ou de se vestir” (p. XX). Fruto do sul do Bronx, Nova York, década de 70. Neste bairro em decadência por falta de políticas públicas, em ruínas, destruição física e social – “contrariando a estatística” (Racionais MC’s) – brota, como flor de lótus, “uma cultura gerada em ventre inquieto” (p. 3). E “nasce furiosa num dia de festa” com dança herdada de diversas matizes; “(…) a fala-canto indócil, rápida, metrificada, repleta de gírias e neologismos, de crueza poética (…). Sua certidão de nascimento é assinada com spray nos muros (…)” (p. 4). Nasce como voz da periferia ou crônica social e “o hip-hop nasce em uma festa” (p. 4). Festa de bairro. “O bairro é o mediador entre os universos público e privado (…)” (p. 6-7). A cultura hip-hop é uma “expressividade estética na busca por uma autorrepresentação  – o ‘fazer e contar a sua própria história’ (…)” (p. 7). É grafite: “o grafite foi o primeiro elemento do hip-hop a sair dos guetos e ganhar o centro (…)” (p. 9). É dança: “Em meio ao ambiente conflituoso, muitas das gangues de rua existentes, influenciadas pela luta pelos direitos civis americanos (…) transformaram seu foco de ação e se converteram em gangues de dança (…)” (p. 14). É performance dos MCs (Mestres de Cerimônia), “com seus jogos de pergunta e resposta (…) além do próprio microfone como elemento de poder, fálico e bélico (…)” (p. 15). São os DJs com suas “técnicas de discotecagem que modificavam, cortavam, arranhavam, sampleavam, interferindo em músicas já existentes, recriando-as; (…)” (p. 15). Cultura de estilo selvagem, indomável, agressivo, “essa pulsão de vida explosiva se coloca em oposição à morte iminente planejada (pelo) Estado (…)” (p. 16).

Deste caldo cultural visceral emerge o teatro hip-hop como linguagem ricamente descrito no capítulo dois. O Núcleo Bartolomeu de Depoimentos se apropria desta cultura e desencadeia o processo de pesquisa de junção de linguagens. As propostas e conceitos são do teatro brechtiano. “Ao mesmo tempo que os integrantes da cultura hip-hop participavam de estudos e práticas da linguagem cênica ‘naturalmente’ épica, os atores (…) começaram a ser introduzidos a pontos mais específicos do universo da cultura das ruas (…)” (p. 67). O método é o chamado de “depoimento”. “O depoimento consistia em uma espécie de ‘roda-viva’, um tribunal figurativo onde cada atriz (…) representava uma personagem que ‘defendia’ seu ponto de vista” (p. 69). Partiam de uma premissa inicial de investigação e qual o seu papel social e “por meio da observação, identificavam aspectos da realidade (…)”. Com este acúmulo, nasce o conceito de ator-MC, que é “um artista híbrido que traz na sua gênese as características narrativas do ator épico (o distanciamento, o anti-ilusionismo, o gestus, a determinação do pensar pelo ser social), mixado ao autodidatismo, à contundência e ao estilo inclusor, libertário e veemente do MC” (pp75-6).  

Este livro é práxis, um universo. A periferia tem teoria, cultura. A periferia tem voz!

Burgueses, cínicos, desencantados, reformistas… “tenho uma notícia para vocês”¹: “A revolução não será televisionada”²!

¹ Do filme Edukators, de Hans Weingartner.

² Gil Scott-Heron.

Léo

 

 

 

 

 

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