Habitar o tempo

João Cabral de Melo Neto

 

Para não matar seu tempo, imaginou:
vivê-lo enquanto ele ocorre, ao vivo;
no instante finíssimo em que ocorre,
em ponta de agulha e porém acessível;
viver seu tempo: para o que ir viver
num deserto literal ou de alpendres;
em ermos, que não distraiam de viver
a agulha de um só instante, plenamente.
Plenamente: vivendo-o de dentro dele;
habitá-lo, na agulha de cada instante,
em cada agulha instante: e habitar nele
tudo o que habitar cede ao habitante.

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E de volta de ir habitar seu tempo:
ele corre vazio, o tal tempo ao vivo;
e, como além de vazio, transparente,
o instante a habitar passa invisível.
Portanto: para não matá-lo, matá-lo;
matar o tempo, enchendo-o de coisas;
em vez do deserto, ir viver nas ruas
onde o enchem e o matam as pessoas;
pois, como o tempo ocorre transparente
e só ganha corpo e cor com seu miolo
(o que não passou do que lhe passou),
para habitá-lo: só no passado, morto.

João Cabral de Melo Neto dedicou este poema para A F. A. Bandeira de Melo.

 

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Curitiba no passado

 

 

 

 

 

 

 

 

6 comentários em “Habitar o tempo

  1. Habitar o tempo, uma expressão verdadeira e forte. Sim, faz refletir muito. Até pq as formas de habitar são diferentes. O wue é habitar p mim, pode não ser p outra pessoa.
    Fiquei pensando o q se passava na vida do Bandeira de Melo p receber esta presente. Talvez estivesse com avançada idade, talvez fosse aniversário, talvez estivesse muito doente,…

    Curtido por 2 pessoas

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