Afonso Arinos: Com a palavra, o POVO!

“Uma ema, abrindo as asas, galopava pelo campo… E os tropeiros, no meio de uma inundação de luz, entre o canto das aves despertadas e o resfolegar dos animais soltos que iam fugindo da beira do rancho, derramavam sua prece pela amplidão imensa” Afonso Arinos.

 

“Quem terá sido esse escritor, cujo modesto perfil tangencia o percurso de três monstros sagrados de nossa literatura, como Euclides da Cunha, Mário de Andrade e Guimarães Rosa?” (p. IX). Assim Walnice Nogueira Galvão nos apresenta Afonso Arinos, Contos (Editora Martins Fontes, S. P., 2006).

Autor mineiro da virada do século – nasce em 1868 e morre em 1916 – foi o primeiro a escrever sobre a Guerra dos Canudos, o romance Os Jagunços, publicado em 1898, “precedendo de vários anos Os Sertões (Euclides da Cunha), lançado no final de 1902” (p. XV). Arinos, neste romance esquecido, já fazia uso de estilo em que ficou conhecido: “o regionalismo de usos e costumes do povo do sertão” (p. XVII). Ele também escreveu Lendas e tradições brasileiras, que deve ter influenciado Mário de Andrade que dedicou sua vida ao estudo e à pesquisa da cultura popular. “Um verdadeiro militante, Arinos (…) conclamara os brasileiros a tomarem consciência do tesouro que o populário representava e que estava a exigir investigação e resgate” (p. XX). Afonso Arinos não se limitava a contar lendas e costumes, “perseguia uma técnica que lhe permitisse colocar o discurso na boca de seus sertanejos, sem recorrer a grifos e itálicos, como era de costume, acentuando a diferença de classe e de origem entre narrador culto e a personagem inculta” (p. XXIV). Este respeito a fala do povo ecoa em Macunaíma, de Mário de Andrade, “até eclodir na esplêndida oralidade ficta de Grande sertão: veredas, de Guimarães Rosa” (p. XXIV).

O povo toma conta das páginas deste livro. O patrão quase não tem voz. São tropeiros, lavadeiras, malandros, e, principalmente, os escravos. O sertão é lindamente descrito com suas plantas e bichos, suas cantigas e seus lamentos. “As estrelas, em divina faceirice, furtavam o brilho às miradas dos tropeiros (…)” (p. 16). Tem um texto sobre o buriti, Buriti Perdido: “(…) tu te ergues altaneira, levantando ao céu as palmas tesas – velho guerreiro petrificado em meio da peleja!” (p.5). Sobre o jatobá, A Árvore do Pranto: “Por que ‘árvore do pranto’? É o nome que lhe deram os caminhantes, como ponto tradicional de separação” (p. 210). Belas comparações: os ventos “como alegres foliões” e cascatas, “serpentes enormes de dorso luzente” (p.74); “a estrela-d’alva, no céu escuro, parecia uma garça lavando-se na lagoa” (p. 146).  Palavras como “enoitara-se” (p. 16), quando cai a noite; ou “antemanhã”, antes da “A barra do dia aí vem! / A barra do sol também, / Ai!” (p. 33). Contos de assombração, causos, feitiço e feiticeiro, cantos dos menestréis sertanejos.

O conto que mais gostei é Pedro Barqueiro (tipo do sertão), dedicado a Coelho Netto. O narrador é um escravo de campo – o Flor, seu “patrão era avalentoado, temido”.  E cumprindo ordens, mais Pascoal, vão “caçar” Pedro Barqueiro: “Esse negro metia medo de se ver, mas era bonito. (…). Parecia ter certeza de que, em chegando a encostar a mão num cabra, o cabra era defunto. Ninguém bulia com ele, mas ele não mexia com os outros. Vivia seu quieto, em seu canto” (p. 137). E era negro fugido, por isso a caça. “Chegara uma precatória da Pedra dos Angicos e o juiz mandou prender a Pedro”. A esperteza dos caçadores e da caça. A coragem deles. O suspense. Final surpreendente.

Fica o convite: Afonso Arinos vale a pena! “Pelo caminho Miguel foi contando à Benedita, para distraí-la, a lenda das estrelas – uma grande boiada, cujo pastor é São Pedro, e que de noite se espalha pelo azul. Apontava para uma e para outra – vê aquela, coitada, tão sozinha! Parece perdida da manada… E a boiada luminosa pascia no azul, mansamente…” (p. 193).

Léo

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