Pirlimpsiquice: Jogo de Cena!

“Rosa, para quem escrever tinha tanto de brincar quanto de rezar (…)” Paulo Rónai.

 

Pirlimpsiquice é um conto de Primeiras Estórias (Editora Nova Fronteira, RJ, 1985) de João Guimarães Rosa. Na orelha da capa há uma explicação para “estória”, neologismo que faz a distinção da história como conto, relatos de acontecimentos fictícios. E “primeiras” não como de juventude ou de trabalhos anteriores já publicados, mas por ser a primeira vez que o autor escreve, publica, contos.

A palavra pirlimpsiquice pode ser decomposta: pirlim, magia; psique, ciência; ice, tom de ironia. Magia, ciência e ironia. É Guimarães – este homem com nome de flor – brincando, rezando, fazendo malabarismo com as palavras.

O narrador em primeira pessoa é um jovem ou adulto relembrando um fato de meninice. “AQUILO na noite do nosso teatrinho foi de Oh. (…). Ainda, hoje adiante, anos, a gente se lembra (…)” (p. 38). Estudante de escola de padres. “A peça ia ser o drama ‘Os Filhos do Doutor Famoso”’ (p. 38). A grande novidade, “pacto de puro entusiasmo”, fez os doze garotos se transformarem. Ataualpa, que seria o Doutor Famoso, e o Darcy, o Filho Capitão, que eram “os dois mais decididos e respeitados” (p. 38), estavam de mal e “tocaram de bem”. Todos decidiram “(…) proceder muito bem, até o dia da festa, não fumar escondido, não conversar nas filas, esquivar o mínimo pito, dar atenção nas aulas” (p. 41). Assim, o drama, a peça, o jogo, faz os garotos encenarem? Jogo de cena.

Os chefes, Ataualpa e Darcy, “(…) nos sobreolharam, e pegaram com ordens: – ‘Ninguém conta nada aos outros, do drama!”’ (p. 39). Os atores ensaiando o drama verdadeiro ensaiam outra estória, por eles inventada. “Precisávamos de imaginar, depressa, alguma outra estória, mais inventada, que íamos falsamente contar, embaindo os demais no engano” (p. 40). Esta “(…) outra estória, por nós tramada, prosseguia, aumentava, nunca terminava (…), que, às vezes, chegávamos a preferir à outra, a ‘estória de verdade’, do drama” (p. 40). Se não bastasse, “(…) circulava outra versão, completa, e por sinal bem aprontada, mas de todo mentirosa” (p. 41), fruto de Gamboa, outro garoto de “muita inventiva e lábia, que afirmava, pés juntos, estar dono da verdade”. Três estórias, três dramas. Criatividade no ar. Jogo de cena.

O narrador, quase preterido do “drama verdadeiro”, foi salvo pelo padre diretor. Alegando “que, aluno aplicado, e com voz variada, certa, de recitador, eu podia no vantajoso ser o ‘ponto”’ (p. 39). Outro, Zé boné, que aproveitava os recreios para encenar “reproduzindo fitas de cinema (…) figurado a um tempo de mocinho, moça, bandidos e xerife” (p. 39), neste drama dos padres, coube o papel de policial, mudo. No entanto, na hora da encenação “verdadeira” os papéis se invertem: o “ponto” vira o ator principal e Zé Boné salva a apresentação. Coisas da vida. Jogo de cena.

Dr. Perdigão, o ensaiador, vai ensinando: “Representar é aprender a viver além dos levianos sentimentos, na verdadeira dignidade” (p. 40). Ou “Longa é a arte e breve a vida…” (p. 41). Os atores: “Suspirávamos pelo perfeito, o estricto jogo de cena a atormentar-nos”.

As lições de Dr. Perdição não foram em vão, embora não como ele queria. Os garotos se apropriam delas de suas próprias maneiras. “Era a hora na hora”. E nesta hora fatídica tudo se embaralhou. “Tempo e contratempos”. O “indesfecho”. Vida e cena se entrelaçam. Até que… Aqui me suspendo. Melhor é ler o conto.

Em Guimarães Rosa o conteúdo e forma são harmônicos e bonitos. Reflexivos. O malabarismo com as palavras mescla-se com um ritmo frenético logo após o conto anunciar o conflito. O leitor sente seu coração palpitar, o frio na barriga, o medo. A descrição do dia da estreia é maravilhosa.

E esses garotos perdidos no tempo, “(…) raro em raro me encontro, os fatos recordam-se” (p. 38). “Sei, de, mais tarde, me dizerem: que tudo tinha e tomava o forte, belo sentido, esse drama do agora, desconhecido, estúrdio, de todos o mais bonito, que nunca houve, ninguém escreveu, não se podendo representar outra vez, e nunca mais” (p. 45).

Léo

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