Mil E Uma Noites De Coragem!

“Assim, suplico-vos que a conteis. Consolar-vos-ei um pouco, pois é certo que os infelizes encontram alívio na narração dos seus males” (As Mil E Uma Noites).

 

Jorge Luis Borges considerava este título, As Mil E Uma Noites, o mais belo da literatura.

Tenho em mãos – presente da Silvana – a edição da Ediouro, 2001, tradução de Alberto Diniz da versão de Antoine Galland. Esta versão francesa foi publicada nos primeiros anos do século XVIII e tornou-se obra clássica da literatura francesa.

Malba Tahan, admirador e divulgador da cultura árabe no Brasil, conta-nos na apresentação que os árabes tinham “verdadeira fascinação pelas histórias e pelas lendas nos domínios da poesia” (p. 15, vol. 1). No Cairo, Damasco, Constantinopla, os contadores de histórias tinham suas corporações, “sindicatos”, dirigidos pelo de maior prestígio com o título de cheik el-medah, chefe dos contadores do café. “É um espetáculo curioso acompanhar as impressões que as histórias produzem na alma ardente e apaixonada dos árabes” (p. 16, vol. 1). Os ouvintes se agitam ou se acalmam, riem ou choram, acompanhando as histórias. “Se o herói do conto é ameaçado de perigo iminente, os ouvintes exclamam em coro: – La, la, la, stagfer Allah! (Não, não, não, Deus não consentirá!)” (p. 16, vol. 1). “(…) com a alma toda nos olhos” (p.17, vol. 1). Estes narradores profissionais colhiam novos enredos dos viajantes, de outros povos, “alteravam os entrechos, mudavam os nomes e, por vezes, o caráter dos personagens, acrescentavam novos episódios e assim ampliavam o rico patrimônio literário com que divertiam seus fervorosos ouvintes” (p. 17, vol. 1).

Mil E Uma Noites foi traduzida diretamente do árabe para o português por Mamede Mustafa Jarouche. Em 2007, eu e o meu filho Jonas, em viagem de férias em Florianópolis, assistimos a aula inaugural do curso de Tradução da Universidade Federal de Santa Catarina ministrada por Jarouche. Também vi vídeos pela internet. Mamede foi direto aos manuscritos árabes que datam do século VIII. Diz que os contos mais conhecidos como Aladim, Ali Babá, não fazem parte do As Mil E Uma Noites. Foi Antoine Galland, o orientalista francês, quem os acrescentou. Que esta tradução – ou versão – popularizou este livro no Ocidente e, inclusive, no Oriente. Malba Tahan já alerta que Galland, “para tornar sua tradução interessante e viva”, aproveitou apenas uma quarta parte dos contos originais, aboliu cenas que pudessem ferir princípios morais cristãs e suprimiu todos os versos, poemas e citações poéticas (p. 20, vol. 1).

O que mais me impressionou neste livro foi a coragem de Cheherazade. O sultão, traído pela sultana, a rainha, decide se vingar de todas as mulheres. Cada noite desposa uma virgem, dorme com ela, e ordena ao grão-vizir, uma espécie de primeiro-ministro, que a mate. “Enfim, todas as noites, casava-se uma donzela e todos os dias morria uma mulher” (p. 38, vol. 1). O reino de Chahriar, o sultão, fica consternado “pela desumanidade sem precedentes”. Pais em prantos, mães temendo por suas filhas, ares cheios de gemidos. Cheherazade, filha mais velha do vizir, suplica humildemente ao pai, o executante das mortes, que seja ela a ser conduzida ao leito: “Pretendo deter a barbaridade do sultão sobre as famílias da cidade. Quero eliminar o justo temor que tantas mães têm de perder suas filhas de modo tão terrível” (p. 38, vol. 1). Ela não foi escolhida. Propõe-se como salvadora de um reino aterrorizado.

Cheherazade usa como arma as histórias de seu povo espalhado pela Terra. Suas narrativas contadas antes do amanhecer prende a atenção do sultão, que fisgado – como nós leitores – suspende a sentença de morte. “Chahriar, que ouvira Cheherazade com prazer, pensou consigo mesmo: – Esperarei até amanhã, e ela morrerá, mal eu tenha ouvido o resto da história” (p. 51, vol. 1). E assim, mil e uma noites. Ele apaziguado pela voz feminina terapêutica, vê “diminuir o injustificado rancor (…) contra as mulheres” (p. 538, vol. 2), e reconhece “os grandes méritos de sua esposa, que não vacilara em se apresentar voluntariamente, sem medo da morte”. Cheherazade conquista o direito à vida e será “considerada libertadora de todas as jovens que ainda seriam imoladas (…)” (p. 539, vol. 2) pelo rancor do sultão.

Eu, que me reinventei aos cinquenta e sete anos duelando pela existência através deste blog todas as quintas-feiras, peço benção à Cheherazade.

Paro por aqui. Já amanhece.

Léo

6 comentários em “Mil E Uma Noites De Coragem!

  1. Olá. Da obra, parece-me não só coragem, mas também ternura ao propor ser ela, que tomou as dores de todas do reino, quem combatesse o medo delas. Da sua reinvenção, que venham muitas mil e uma noites contadas através do blog. Beijos

    Curtido por 1 pessoa

  2. Que gostoso ver a alegria em suas letras e o sentimento de completude ao narrar a sua reinvenção, ou reencontro com o que encontrou.
    Que as formas de seu prazer seja também o prazer dos que a lerem.
    Beijão procê.

    Curtido por 2 pessoas

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s