Vida!

“A vida

– essa invenção magnífica da morte”.

Albano Martins

 

Meu pai está morrendo. Sinto-me como um vulcão de sentimentos múltiplos e variados. Como não sei o que fazer com isso, escrevo.

Há uma compreensão em mim. Tivemos tempo de ser amigos, confidentes; compartilhar. Tivemos tempo de ser “inimigos”, nos atacar. Tivemos tempo de fazer as pazes. Tivemos tempo de ser companheiros, cada um no seu caminho. E, setenta e quatro anos é um bom período na Terra, diante da conjuntura.

Há um sofrimento em mim. Por que meu pai não foi feliz? Por que um pobre soldado ficou tão cansado das batalhas? Por que a vida é tão injusta? Por que este pobre quando teve dinheiro já não tinha muito que fazer com ele? Por que tudo parece tão descompassado? Por que este sofrimento no seu final de vida? Por que tanta dor?

Mas, há um sofrimento maior em mim. Aquele que vê a vida tão frágil. Como tudo é tão frágil! Não é fácil enxergar a fragilidade, a linha tênue, os limites, a humanidade que poderia trilhar outro caminho e que ainda insiste no caminho do lucro, da exploração do homem pelo homem.

Há uma alegria em mim. A fortaleza da minha mãe, a sua compreensão. A solidariedade entre nós, família. Sinto que estamos juntos nesta batalha. Estamos juntos ao redor do patriarca que está morrendo. O patriarca que há muito tempo – parece – desistiu e se cansou. Ou percebeu o essencial da vida e o que realmente interessa são as pessoas que ama? Há muito tempo não canta mais. Não toca mais violão. Não faz mais poesia. Concentrou-se no essencial ou desistiu? Tenho a impressão que se sente fora do tempo, como se seu tempo não fosse este. Como o livro e filme “O Leopardo” – guardada as proporções – que fala de um nobre italiano que vê o ascenso da burguesia, que tem plena consciência de seu tempo de mudança, “mas que nada muda”.

Ao mesmo tempo sinto alegria de estar viva. Se tudo é tão frágil, viver cada minuto intensamente. Sou fruto do feijão e o sonho, a mãe e o pai. Tive chance de conhecer, de vivenciar as ferramentas que a mãe e o pai trouxeram para construir esta família. Tive oportunidade de ver florescer as bases sólidas que eles forjaram: a honestidade, o estar juntos, a solidariedade, o respeito às diferenças, o trabalho, e as coisas bobas também.

Humana que sou, espero um milagre ou o fim do sofrimento.

Em todo caso, é a vida.

 

Texto de Truman Capote sobre Marilyn Monroe, do livro Ensaios:

“Marilyn: Lembre-se, eu perguntei se alguém indagasse a você como eu sou, como é realmente Marilyn Monroe – bem, como você responderia, mesmo? (Seu tom era provocativo, debochado, mas franco, também: ela queria uma resposta honesta.) Aposto que diria que sou uma pateta. (…).

TC: É claro. Mas eu também diria…

(A luz se despedia. Ela parecia desaparecer com ela, misturar-se com o céu e as nuvens, recuar para além deles. Eu queria falar mais alto que os gritos das gaivotas e chamá-la de volta: Marilyn! Marilyn, por que tudo tinha de ser como foi? Por que a vida tem que ser tão miserável?)

TC: Eu diria…

Marilyn: Não consigo ouvi-lo.

TC: Eu diria que você é uma bela criança.”

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P.S. : Meu pai faleceu em dezembro de 2013.

 

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