Contar histórias é duelar com a morte!

“A literatura, como toda arte, é uma confissão de que a vida não basta” Fernando Pessoa.

Balzac, no conto O Elixir Da Longa Vida, nos lembra que “a morte é tão súbita em seus caprichos quanto uma cortesã em seus desdéns; é, porém, mais fiel, nunca enganou ninguém”. No entanto, Sherazade conta histórias “como resistência à morte” (Luzia de Maria, O Que É Conto, Editora Brasiliense, p. 7).

A história é conhecida. “Sherazade, a das Mil e Uma Noites, conquista o coração do rei valendo-se da arte de contar histórias” (Luzia de Maria).  O rei Shariar, desiludido com a traição de sua mulher, desposa uma virgem em cada noite, matando-a na manhã seguinte. Sherazade, ao ser escolhida, “decide não se render sem lutar pela vida”. Fascina “o rei com narrativas que desembocam umas nas outras, tal como cascas de cebola, sobrepostas, de modo que o rei, desejoso de ouvir a continuação”, adia a execução e se apaixona por ela.

Já Boccaccio, diante da peste que assola Florença em 1348, a abandona e “busca refúgio em outras paragens”. “Buscando vida e, como vida, distração (…)”, dez pessoas, numa belíssima propriedade um pouco distante, resolve “passar as tardes, confortavelmente reunidas no verde prado, tecendo narrativas oralmente”. Decameron, obra deste escritor italiano, se compõem dessas cem narrativas contadas pelas dez pessoas ao longo de dez dias, enquanto a morte rondava.

No entanto, “o narrador – por mais familiar que este nome nos soe – de modo algum conserva viva, dentro de nós, a plenitude de sua eficácia” nos lembra Walter Benjamin (“O Narrador” in: Textos Escolhidos, Editor: Victor Civita, 1983, p. 57). A arte de narrar é a troca de experiências, de alguém que faz uma viagem, “então tem alguma coisa para contar, diz a voz do povo e imagina o narrador como alguém que vem de longe”, ou daquele que, “vivendo honestamente do seu trabalho, ficou em casa e conhece as histórias e tradições de sua terra”. A narrativa “carrega consigo sua utilidade”: dar conselhos. Só que hoje em dia “dar conselhos” caiu em desuso e “a experiência caiu na cotação”. Conselhos não como respostas e sim como “uma proposta que diz respeito à continuidade de uma história (…). O conselho, entretecido na matéria viva vivida, é sabedoria”.

Este processo de declínio da narrativa “é o advento do romance no início da Era Moderna”. Enquanto o narrador colhe e narra experiência e a transforma novamente em experiência dos que ouvem sua história, o romancista segrega-se. “O local de nascimento do romance é o indivíduo na sua solidão, que já não consegue exprimir-se exemplarmente sobre seus interesses fundamentais, pois ele mesmo está desorientado e não sabe mais aconselhar”. O romance, que remonta à Antiguidade, floresce e tem seu domínio consolidado na burguesia. O capitalismo transforma a imprensa em seu instrumento de comunicação cuja forma é a informação. “Cada manhã nos informa sobre as novidades do universo. No entanto somos pobres em histórias notáveis. Isso ocorre porque não chega até nós nenhum fato que já não tenha sido impregnado de explicações”. Perdeu-se o dom de escutar; a comunidade dos que escutam desaparece; não há mais a “moral da história”, o conselho, a narrativa como um processo coletivo de troca de experiências. Restou o romance que busca o “sentido da vida”. Georg Lukács em Teoria do Romance (citado por Benjamin) esclarece que “só no romance separam-se sentido e vida, e com isso o essencial e o temporal”. O romancista escreve só e o leitor é solitário. E a morte perdeu sua onipresença e força plástica na consciência comum. “E no decorrer do século XIX a sociedade burguesa produziu, com ritos higiênicos e sociais, privados e públicos, um efeito secundário que talvez tenha sido seu objetivo principal, embora inconsciente: oferecer às pessoas a possibilidade de se furtarem à visão dos moribundos”. Os espaços ficaram purificados de morte e “os cidadãos hoje são habitantes enxutos de eternidade (…)”.

Porém, “a literatura, felizmente, continua existindo (…)” afirma Leyla Perrone-Moisés (“A Criação do Texto Literário in: Flores da Escrivaninha: Ensaios, São Paulo: Companhia das Letras, 1990, p. 102). Se “o mundo em que vivemos, o mundo em que tropeçamos diariamente, não é satisfatório”, a literatura parte deste real, tenta dizê-lo, falha, “mas ao falhar diz outra coisa, desvendando um mundo mais real do que aquele que pretendia dizer”. Pela imaginação, nos compensa da insatisfação, harmoniza os dados do real, nos aponta o que falta, “no mundo e em nós”. “Na mônada do poema, o mundo fica momentaneamente cifrado, a captação do particular insinuando que uma plenitude do mundo é desejável e possível”. A obra literária demonstra que somos capazes de harmonia.

Se vivemos num mundo limpo da morte, se somos enxutos de eternidade, se “escrever é tantas vezes lembrar-se do que nunca existiu” (Clarice Lispector, citada por Leyla Perrone-Moisés), se estamos solitários, perdidos, procurando um “sentido da vida”, que Sherazade nos ilumine, nos faça enfrentar a morte, que nos force a narrar, a ouvir, a dar e receber conselhos, a forçar uma harmonia, a resistir à morte. Contar histórias é duelar com a morte. A luta é em vão, sabemos. Mas, enquanto estamos aqui, por que não? “Que possa a morte me apanhar pensando, escrevendo, lendo” (Epicteto).

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No Passeio Público, uma flor insiste em brotar nas grades de ferro. Foto minha.
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