FRANKENSTEIN: A Ciência Como Terror?

“Deve ter sido medonho, pois terrivelmente espantoso devia ser qualquer tentativa humana para imitar o estupendo mecanismo do Criador do mundo” (Introdução, p.11, Mary Schelley).

Frankenstein

Há exemplos na natureza de imortalidade. Um tipo de água viva (Turritopsis natricula) não morre, só se for devorada. O mel é um alimento não perecível.

No documentário Quanto Tempo o Tempo Tem (Adriana L. Dutra, 2015), fala de um cientista japonês que, em 2006, 2007, conseguiu renovar uma célula adulta em célula de feto. Foi Nobel em 2012. Cientistas, sociólogos, neurocientistas, entre outros, fazem prognósticos sobre o futuro. Poderemos dividir o mundo com outras inteligências biológicas e artificiais, androides, avatar. Fala-se em Transumanos, pós-homem, questionando o limite humano. Transcendência de espaço e tempo realizado pela ciência. Mudança de DNA, genes, desenvolver órgãos humanos em laboratórios, reprogramação celular, restaurar membros; interface cérebro/máquina, introduzir software no cérebro para destruir doenças; transferência de consciência do corpo para uma máquina, ou nuvem; transferência da memória humana para um chip. No futuro poderemos ter uma desigualdade social inédita na história humana: mortais e imortais. Redefinindo, assim, a nossa relação com a morte. Parece assustador, não?

Talvez tenha sido o mesmo impacto que os leitores do século XIX tiveram ao ler Frankenstein, de Mary Schelley (Editora L&PM Pocket). A história é bem conhecida: Victor Frankenstein, um estudante suíço de ciências naturais, consegue “conferir vida à matéria morta” (p. 56). De corpos mortos, Victor cria uma criatura: “Era já quase uma hora da madrugada; a chuva batia tristemente nas janelas; e minha vela estava quase consumida quando, ao lusco-fusco da luz bruxuleante prestes a extinguir-se, vi abrir-se o baço olho amarelo da criatura (…)” (p. 63). Uma criatura sem nome, que no decorrer do tempo, fica conhecida pelo nome de seu criador (quem é o monstro?). No romance, Victor o chama de “demônio” (p. 28). Muitos o elegem como um dos melhores do terror. De fato há trechos aterrorizantes. A criatura, Moderno Adão, é um gigante com 2,40 metros de altura e mais forte que qualquer ser humano. Faz ameaças apavorantes ao seu criador: “Meu reinado ainda não acabou” (p. 220); “Eu estarei contigo na tua noite de núpcias” (p.203). A caçada final entre criador e criatura é fascinante.  “(…) cenas de uma obsessiva perseguição através das vastidões desoladas do Ártico” (Posfácio de Harold Bloom, p. 245).

Minha questão é a premissa do romance. O Mito de Frankenstein é que tem algo que não podemos “por o dedo”. O homem ao tentar se igualar a Deus cria monstro. A epígrafe de Mary Schelley que escolhi é uma prova. Victor Frankenstein narra sua própria história para um marinheiro que também quer “por o dedo” onde não deve. Marinheiro: “Saciarei minha curiosidade ardente com a visão de uma parte do mundo jamais visitada e posso pisar uma terra que jamais recebeu a impressão de um pé humano” (pp.17-18). Victor: “Um dos fenômenos que havia atraído particularmente minha atenção era a estrutura do corpo humano (…). Muitas vezes eu me perguntava de onde provinha o princípio da vida” (p. 56). A conclusão de Victor é a mesma do romance: “Aprenda comigo, se não pelos meus ensinamentos, ao menos pelo meu exemplo, como é perigoso adquirir saber, e quão mais feliz é o homem que acredita ser a sua cidade natal o mundo, do que aquele que aspira a tornar-se maior do que a sua natureza permite” (p. 58).

Será que a questão é mesmo esta? O homem não deve adquirir saber, não profanar lugares e respeitar algo como sagrado e não “por o dedo”? O próprio Victor responde: “Era uma questão ousada e que sempre foi considerada um mistério (o princípio da vida); no entanto, com quantas coisas não nos poderíamos familiarizar se a covardia ou a displicência não impedissem nossas pesquisas?” (p. 56).

Creio que podemos aprender neste romance é a postura que um cientista não deve ter.

Victor Frankenstein comete, pelo menos, três grandes “pecados”. Seu trabalho é obsessivo: “Parece que eu havia perdido toda sensibilidade de espírito e não me preocupava senão com o meu trabalho. (…) Os meses de verão passaram enquanto eu me dedicava assim, de corpo e alma, a uma única ocupação. A estação era das mais belas (…) mas meus olhos estavam insensíveis aos encantos da natureza” (p. 60). Na obsessão perdemos a ideia do todo. Seu trabalho foi solitário: “Eu empalidecera e emagrecera devido ao estudo e ao isolamento. (…) Um segredo, que só eu possuía (…)” (p. 59). O trabalho solitário leva a muitos erros e corre-se o perigo da questão do poder: “Quando me vi com aquele poder tão espantoso em minhas mãos, hesitei longo tempo quanto à maneira de empregá-lo” (p. 58). E por fim, o mais grave deles: a irresponsabilidade. Victor dá vida a uma criatura e… o abandona: “Fazia agora quase dois anos desde aquela noite em que ele recebera a vida” (p.84). Harold Bloom, no posfácio, acredita que a tragédia de Frankenstein deriva de um erro moral, “sua incapacidade de amar; ele odiava sua criatura, ficou aterrorizado e fugiu às suas responsabilidades” (pp. 248-9). Outro “pecado” quem comete somos nós: a criatura só mata porque foi desprezada, odiada e injustiçada pela humanidade. Reagimos com o medo do desconhecido, do diferente (lembra X-Men). Criatura para o criador: “Você me dotou de percepção e de paixões, abandonando-me depois como objeto de desdém e horror da humanidade” (p. 149).

A humanidade tem o direito de “por o dedo” onde quiser. Nada é sagrado.  O que precisamos é a luta pelo socialismo. Só assim a ciência cumprirá seu ofício: emancipar a humanidade em comunhão com a natureza e o universo. Pois “queremos saber/quando vamos ter/ raio laser mais barato” (Gil).

PS: Uma curiosidade. A criatura, ao encontrar seu criador, pede uma companheira, pois se sente só: “Se você concordar (…). Irei para as florestas sem fim da América do Sul” (pp. 156-7).

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