Uma História Do Primeiro De Maio

“Um pau de bandeira branco e longo apareceu no ar, inclinou-se, dividiu a multidão, no meio da qual desapareceu e, um instante depois, por cima dos rostos levantados desdobrou-se, como um pássaro vermelho, a grande bandeira do operariado. (…).

Reneguemos o mundo caduco!

A Mãe, Máximo Gorki.

revoução russa

Em 1° de maio de 1902 na Rússia, na cidade de Sormovo, operários foram presos, julgados e condenados à deportação. Seus crimes foram organizar uma manifestação e desfraldar a bandeira vermelha do Partido Socialdemocrata. O romance A Mãe, de Máximo Gorki (Editora Expressão Popular), foi inspirado nesses acontecimentos.

O centro do romance é uma mãe de uma família operária que se transforma: de mulher espancada pelo marido à tomada de consciência. Seu filho – operário como o pai- torna-se militante do Partido Socialdemocrata (marxista na época).  Com ele, a mãe vai ampliando sua visão de mundo e de vida. Perde o medo. E segue seus passos. Georg Lukács considera este livro uma obra-prima.

É bom ler sobre operário para variar. A visão da pequena burguesia inunda os cinemas e romances, e é irritante. No entanto, A Mãe não é um bom romance. Parece-me oco; é como se o conflito estivesse fora do romance, e não algo vivo com todas as partes em contradição. O inimigo, o opressor, está pairando no ar do romance, mas não se mostra.  Falta a complexidade. Não há mediação. A luta por um mundo novo é anunciada como uma verdade messiânica, panfletária. Falta dialética. Um bom exemplo é o julgamento dos operários. São descritos os sentimentos da mãe e o discurso do filho. Não ouvimos as partes, os argumentos; só é apresentado um lado; não há contrapartida. O narrador tem um olhar de pena sobre suas personagens; são vitimizadas pela opressão do sistema e, ao mesmo tempo, heroicas demais na luta.  Ao terminar de ler o romance, fiquei com dúvidas se ela realmente tinha se transformado ou só trocou de dono. Se ela não tinha se tornado mais mãe do que um ser autônomo.

Frei Betto, no prefácio, diz que Gorki é “dotado da arte de descrever a alma de seus personagens afligidos pela opressão, ultrapassou as barreiras da ficção e recheou seus textos de comentários políticos, sociais e filosóficos, ameaçando a qualidade do estilo” (pp. 8-9). Em 1932, Gorki foi eleito o primeiro presidente da União dos Escritores Soviéticos, criado pelo Partido Comunista. “A partir daquele momento, o escritor passou a defender a ortodoxia estalinista, forjando o conceito de ‘realismo socialista’ – tendência artística que despojava a arte de sua natureza estética para transformá-la numa captação ideológica da realidade. (…); na literatura, exaltava o ‘herói positivo’, o revolucionário pleno de virtudes e sem vícios; (…)” (p.10). Para mim, A Mãe, escrito em 1907, já tem este conceito em potencial. Cito Lukács em outro contexto, “a ideia histórica e socialmente justa não chega a ter uma expressão literária convincente” (Narrar ou descrever? In: Ensaios sobre Literatura. Editora Civilização Brasileira, p. 93).

Do romance, resta o real. No dia 1° de Maio de 1902, na cidade de Sormovo, manifestantes russos ergueram, “como um pássaro (…), a grande bandeira do operariado”. Vermelha. Revolucionária.

“- Ó vida futura! nós te criaremos” (Drummond).

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