SOBRE HERÓIS, HEROÍNAS E ANTI-HERÓIS

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 1 – Do Romance Histórico

   “O passado só torna-se transparente quando se pode operar, convincentemente, uma crítica do presente” (György Lukács, História e consciência de classe).

 Herói, como diz Burckhardt, “é aquilo que nós não somos” (citando Lukács). Creio que boa parte do cinema e romance trabalha com esta concepção de herói. Mas, nem sempre foi assim. Depende do chão histórico.

Os filmes de grande produção fazem questão que o protagonista seja imbuído de coragem, sentimentos do bem, consegue fazer tudo sozinho. No máximo tem alguém que serve de confidente, um amigo. Tem-se rebelde – como Thelma & Louise por exemplo – o expectador até sente simpatia por ele, torce por ele, mas no fim morre. Thelma & Louise poderiam ter conseguido fugir para o México. É como se nos dissessem que até podemos ter simpatia, porém não seja um rebelde, vejam como eles acabam. Ou Matrix. Há uma revolução em curso numa luta entre humanos e máquinas. No entanto esperam pelo “escolhido”.  E o povo? Ou é ignorado ou figurante, como na série Games of Thrones. As decisões, o conflito, as questões, sempre estão com “os de cima”. Quando se tem como temática os pobres, os favelados, o olhar é de cima, não de dentro. Pode ser um olhar condescendente, de pena ou de nojo. No geral, saímos do cinema como entramos: meros expectadores. Não saímos como agentes da vida “real” com capacidade de transformar a história. Dos rebeldes, sentimos simpatia sem querer ser um deles. Não nos sentimos o “escolhido”. O herói é aquilo que não somos.

Com as revoluções do século XVIII, as massas sentiram-se portadoras da história. A Europa se transforma em todos os sentidos. A burguesia, apoiada no povo, luta contra a nobreza e vai moldando a sociedade à sua imagem e semelhança. Neste chão histórico, Walter Scott, em 1820 publica Ivanhoé. György LuKács, em O Romance histórico (Boitempo Editorial), considera Scott o melhor. A Inglaterra se desenvolve com relativa estabilidade se comparada com o continente, e “possibilitou que o sentimento histórico recém-despertado pudesse se condensar em uma forma grandiosa, objetiva e épica” (Lukács). Walter Scott adota o “caminho do meio” como visão de mundo conservadora. Porém “permanece fortemente ligado às camadas da sociedade arruinadas pela Revolução Industrial” (Lukács). Ele “não faz parte nem dos entusiastas do desenvolvimento nem de seus apaixonados e patéticos contestadores” (Lukács). Scott não poupa crítica ao desenvolvimento do capitalismo e demonstra profunda compaixão pela miséria do povo. Em suas obras procura “demonstrar (a) realidade histórica pela figuração ficcional das grandes crises da história inglesa. (…). O ‘herói’ do romance scottiano é sempre um gentleman inglês mediano, mais ou menos medíocre (…), possui certa inteligência prática, porém não excepcional, certa firmeza moral e honestidade que beiram o sacrifício, mas jamais alcançam o nível de uma paixão humana arrebatadora, de uma devoção entusiasmada a uma causa grandiosa” (Lukács). Seus heróis são apenas corretos e nunca heroicos. Scott tenta abarcar as lutas e as oposições do período histórico por “meio de homens que, em sua psicologia e em seu destino, permanecem sempre como representantes de correntes sociais e potências históricas” (Lukács). Sempre no sentido social e não individual. Sua grandeza está em “dar vida humana a tipos sociais históricos”.   

Seu herói nem é a personagem principal. É secundária. Ivanhoé só se apresenta na página 138 do romance. Tem-se o porqueiro, o bobo, os saxões, os normandos, representantes da igreja, os templários, Ricardo Coração –de- Leão, Robin Hood, o príncipe João e sua corte. Amplas descrições de fatos, pessoas, costumes, sobre os judeus (tem até Rebeca que grita: “Justo céu, fazei triunfar a causa do oprimido e do cativo!”). Sua personagem principal é a vastidão do momento histórico, “condições reais da vida, da crise realmente vital e crescente da nação (…). Scott parte da figuração da totalidade da vida nacional em sua complicada interação entre ‘alto’ e ‘baixo’; aqui, a enérgica tendência ao caráter popular se manifesta no fato de que ele enxerga no ‘baixo’ a base material e a explicação literária da figuração daquilo que ocorre no ‘alto’” (Lukács). “Traz o passado para perto de nós e o torna experienciável (…) como a pré-história do presente”. Entender o presente para transformá-lo.

Em 1848 a Europa é sacudida por revoluções e o proletariado invade a cena como classe. Cai a máscara da burguesia: a sociedade não é uma só, é dividida em classes sociais. Uma batalha ferrenha entre burguesia e o proletariado toma as ruas de Paris. Há mudanças na concepção da história. “A separação de cada povo em ‘duas nações’ ocorreu – ao menos como tendência – também no terreno ideológico” (Lukács). Posteriormente a Europa vive o fascismo, nazismo, stalinismo.  Os heróis vão se tornando solitários, cheios de si, perfeitos, encarnação do bem, “privatizado”, individual sem contexto social. A visão é sempre dos “de cima”; os “de baixo” ou saem de cena ou são figurantes. A história é concebida como pura questão de poder. Há um empobrecimento do mundo figurado. O autor, no geral, se transforma em representante do pequeno-burguês pelo fato de não conseguir transpor em sua cabeça os limites que não consegue ultrapassar na vida real (Marx). Nós, o povo, já não somos mais heróis na ficção. Só na vida real.  

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