2- Da Heroína

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“Em meio à agitação de comentários sectários, havia também – no mundo inteiro, era visível – uma sensação de assombro, até de reverente admiração. Alguma coisa transformadora, quase miraculosa, estava acontecendo. O ar estava cheio de possibilidades, da sensação de um recomeço” (Carl Sagan, Contato).

 Contato (Companhia das Letras) é um romance de ficção científica publicado em 1985. Carl Sagan, seu autor, era um físico que se dedicava em democratizar a ciência, tornando-a acessível aos leigos sem, no entanto, vulgarizá-la. O romance se passa nos anos 90, às portas do final do milênio, ainda sob a Guerra Fria. A protagonista é Ellie Arroway, uma física radioastrônoma que se dedica a rastrear os sons do universo através de radiotelescópios. O projeto está em busca de vida inteligente no espaço. O ápice do romance é o contato, uma mensagem que a Terra recebe da estrela Vega, uma seqüência de números primos.

Creio que Ellie é uma verdadeira heroína aos moldes de Lukács: correta e não heroica, “representante de correntes sociais e potências históricas”. Conhecemo-la desde seu nascimento e vamos lendo o mundo ao seu redor se transformando. O fato de ser uma mulher protagonista num mundo científico masculinizado, já nos dá uma dimensão de como Carl Sagan projetava o futuro: “Devido à natureza de seu trabalho e à sua posição no mundo científico, via-se constantemente em situações nas quais era a única mulher presente (…)”. A presidência dos Estados Unidos também era ocupada por uma mulher. Ellie é forte, inquieta, reflexiva; interessada em física, matemática, engenhos, céus. Ela é um veículo para o verdadeiro protagonismo: uma Terra dividida pela Guerra Fria se vê na necessidade de união perante a mensagem de Vega. Ellie é íntegra. O autor descreve como deveria ser uma atitude íntegra de um cientista diante de um contato extraterrestre. Essa hipótese de contato é narrada em toda vastidão. O impacto nos indivíduos, desde o medo do planeta ser invadido e ser destruído até os que veem no fato uma esperança: “Havia aqueles que achavam que escutar o sinal era uma abominação (…). Havia os que (…) recomendavam a construção de radiotelescópios ainda maiores”.  Impacto político, pois a mensagem precisa de todos os países e seus cientistas para decifrá-la: “Com efeito, todos os radiotelescópios dos países em cujo céu Vega aparecia estavam voltados para essa estrela”. Há um amplo debate entre religião e ciência: Ellie – “Tudo que o senhor não compreende, reverendo Rankin, atribui a Deus. Deus é o lugar para onde o senhor varre todos os mistérios do mundo, todos os desafios à nossa inteligência”. Surgimento de seitas: “As seitas religiosas, tanto as reconhecidas como as marginais (…) dissecavam as implicações teológicas da Mensagem. Algumas supunham-na procedente de Deus; para outras, ela vinha do Demônio”. Ah, sim, a título de curiosidade, Trotsky é citado por duas vezes.

 Em 1997 foi lançado o filme Contato dirigido por Robert Zemeckis, depois da morte de Carl Sagan. Carl e sua esposa Ann Druyan escreveram o contorno para uma adaptação. Mas a “pegada” é outra. Ellie Arroway se transforma numa heroína típica de filmes hollywoodianos. É ela que ouve pela primeira vez o sinal da mensagem. No livro, são os seus companheiros de laboratório. No filme ela faz a viagem no espaço só. No romance é uma tripulação de cinco representantes de países. O filme dá muito peso ao caso de amor entre ela e a um erudito pregador fundamentalista cristão, Palmer Joss. E iguala a experiência da viagem espacial de Ellie à experiência religiosa. Duas cenas se salvam e são magníficas. A abertura do filme é a câmera percorrendo do planeta Terra com o sol surgindo, caminhando pelo espaço, passando pela Via Láctea, até se transformar numa imagem no olho de Ellie. A segunda cena, quando ela está viajando pelo espaço e ela exclama: “Não tenho palavras. É poesia. Deviam ter mandado um poeta”.

Tomara que o futuro nos reserve a revolução, socialismo, contatos. Que a humanidade seja uma só, sem luta de classes, aberta às mensagens e ao universo. Sem heróis nem heroínas. E muitas, muitas Ellies.

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